Acordei velha, assim. Não se preocupe comigo.
Subitamente envelheci. Penso que acontece com muitos que conheci.
Disseram-me que passa como veio essa estafa de vida. Só é preciso ver gente. Mas a gente é que me envelhece. Vim numa trajetória retilínea de juventude e frescor de juventude e sexo de juventude. É claro que uma pessoa conhece a própria trajetória, ainda que ignore as coisas divinas ou o carma ancestral. A verdade é que a gente se sente no declínio próspero e corriqueiro e, por isso, vai-se abandonando nos estágios intermediários até a plena loucura.
Essa lesão tão sem graça e singela, que me alcançaria de qualquer maneira, alcança-me agora, cedo demais, mas não me sinto ultrajada já que teria que morrer de qualquer forma. Eu tinha pena de morrer e o fui perdendo. Foram várias as razões cuidadosamente entristecidas durante o contínuo da noite e do dia. Se o mundo parasse vez em quando talvez isso não me tivesse acontecido. Talvez isso simplesmente me tivesse salvado, mas já é tarde. Eu, particularmente, não queria morrer. Mas é que sinto um cansaço tal que até me rendo. Não quero mais brigar, não quero mais ser o que não sou. Quero ser essa envelhecida de mágoas desconexas e maldadezinhas infantis. Agora assim, que eu me apressei a morrer, fico cá cutucando feridas que se queriam esquecidas e fitando-as durante seu longo e penoso sangramento.
E desde que decidi morrer, decidi também ficar só nessa minha empreitada longa e irreversível. É uma morte precoce, e deve, só pode ser feita só. A morte é a solidão, afinal morrer é algo que se faz sozinho tal qual nascer. Nascer é algo que se faz sozinho. Os médicos existem para ajudar as mães, não os bebês. Os bebês nascem sozinhos e logo percebem a imensa solidão em que se meteram, por isso choram. Choram por sentir que jamais estarão ligados ao umbigo de alguém novamente. Nascer é um gesto supremo de aceitação da solidão e da morte. Não tivesse nascido, não morreria e estava resolvido. Mas fui nascer e agora também estou resoluta a aceitar o fardo da etapa última. Eu sou jovem e não precisava ir agora, bem sei.
Mas desisti.
O peso da minha alma não se descreve em uma linha de arrobas. Preciso ir que já quase não sinto mais pena e esse é o prenúncio da hora.
Vou dormir.
Bú? E assim ela se foi, jovem...bem jovem com 96 anos, no dia 7 de setembro de 2007. Durma em paz dona Maria! ♥
Suicide Girl and The Ghost - Para todos aqueles que pararam de acreditar na imensidão do amor:
Parei de caminhar pela marquise, com medo da chuva. Me deixei atingir por raios. É intensa, a vida de quem corre na chuva, sem desviar das poças d'água. É imprevisível, a vida de quem caminha sem medo de escorregar, de olhos fixos no horizonte, desatento às pedras no chão. E entre "não faça isso" e "faça aquilo", a gente passa a caminhar por estradas cada vez mais estreitas, quase claustrofóbicas. São tantas as lições que a vida nos dá, que, por vezes, vemos nosso mundo se restringir a minúsculos cubículos cercados por instransponíveis muralhas. Assim a gente pára de caminhar, e passamos a viver em um eterno ciclo repetitivo. E é quando essa situação se transforma numa chaga insuportável, a gente apalpa as próprias costas e descobre que somos dotados de asas. Lá de cima, a gente pode acompanhar todos os caminhos que deixamos de percorrer, por medo de colecionar novas - e mais doloridas - cicatrizes. Tomados pelo arrependimento, descobrimos que nossa estrada não é de duas mãos.
Eu já tentei, eu já quis desistir; mas quando chega a noite eu não posso dormir, pois quando fecho os olhos nenhuma luz se apaga.
Verdade... Quem é capaz de conviver com ela?
Vontade... De um dia jogar tudo para o ar. E viver sabendo que não há nada depois; viver sem esperar por quem nunca existiu.
Salvation under my breath, just breathe