Até que me esgote a voz


sábado, 13 de outubro de 2012

Ilusão de ótica


As pessoas passavam e olhavam aquela pintura abstrata, a qual nada de fato acontecia, só o ir e vir de olhares curiosos que chegavam e rapidamente partiam.
Ele resolveu ficar e fitá-la; ele olhava atentamente aquela pintura. Notou suas cores intensas e contrastantes, que pareciam lutar umas com as outras. As pinceladas eram tão firmes e, ao mesmo tempo, aparentemente aleatórias, que pareciam ferir a tela. Ele tecia todo o tipo de comentário a respeito da obra para si mesmo, enquanto os outros só passavam desatentos, perguntando uns aos outros onde ficavam os quadros realistas.
Eu, do meu lugar fixo, observava ele se aproximar silenciosamente; a passos cuidados como se ateasse o chão, ele chegou a minha frente. Via seus passos curtos, seu andar vagaroso e esperava ansiosamente que chegasse.
Já diante de mim, a algum tempo me fitando como poucos tiveram a audácia de fazer, achei que com a mesma calma você partiria. Mas com uma destreza inesperada você se fixou.
Um quadro abstrato sendo docemente fitado por observador peculiar; apetecia-me a sua calma passiva e o seu estar leve e direto.
Em alguns momentos ele olhava rapidamente ao redor, eu fingia não notar mas via seu interesse pelas outras pinturas, notava uma certa inveja que havia dele em relação aos outros transeuntes.
Ele se interessou por esse quadro abstrato, via em mim mais do que os outros costumam chamar de 'natureza morta'; mas seu interesse se fortalecia na sua insegurança.
Ele é inseguro, tem medo de tudo quase; teme a luz que incide sobre nós quadros, poderia mostrar ao mundo toda a beleza que há sobre nós e ele nos perderia; teme a falta de luz, poderia esconder temporariamente o que certamente notaria.
Ele ainda está aqui, noto sua insegurança no seu piscar de olhos - rápido e medroso, ele teme que eu parta nesse milésimo de segundo.
Adoro o seu medo, faz com que eu me sinta mais forte, segura, faz-me acreditar que ele estará sempre aqui, pois lhe ofereço segurança gratuita.
Investigo sua insegurança, pois ela torna minhas cores menos vivas; não quero que se faça presente só por não se achar capaz de analisar quadro melhor. Não quero que fique por acreditar que um quadro tão abstrato quanto a paixão já não desperta interesse alheio.
Enquanto ele me fita silenciosamente, enquanto ele teteia com seu olhar sutil, gosto de fingir que ele me diz:

"De real, basta o mundo. Eu quero é partir em busca do que é incógnito, improvável e incorreto. Eu vejo sentido no abstrato e, sim, muita vida no que muitos convencionaram chamar de 'natureza morta'. O que é mais abstrato do que a paixão? Ele não tem forma nem cor, mas é o que me faz parar o coração. A gente busca incessantemente essa sensação de enfartar de paixão, de sentí-la pulsando e estourando nossas veias. Que outra coisa nos leva a isso? O que mais justifica todos os poemas, todas as músicas, toda a angústia e inspiração do mundo? Só ela, a paixão. A pintura abstrata que eu aprecio como ninguém mais."

Bú? Delicadeza, a mais contundente resistência.