Até que me esgote a voz


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A verdade é inegavel, ninguém quer ser mortal - Apolo


A primeira coisa que notavam nele era a aparência. Alto, moreno, com um sorriso reconfortante que parecia não esconder nada: aquele tipo de beleza fácil que não pode ser estragada pela tensão ou por doença, como algo feito de ouro, de modo que mesmo se você o entortasse ou fundisse, permaneceria sempre puro e belo. Era assim que eu o via, desde quando era uma menina e olhava para ele na sala de aula. Mas não era só eu; era assim que todos o viam.
A beleza é uma lente que distorce. Ele tinha aquele tipo de fisionomia que é sempre recebido com sorrisos e apertos de mão, olhadelas extras, olhares que duravam um instante além do normal; um sorriso e um rosto que não eram esquecidos com facilidade. Até a forma como ele segurava o cigarro, ou como se inclinava para amarrar o sapato, tinha uma certa graça masculina que fazia com que as pessoas quisessem esboçá-lo. Que forma mais torta e confusa de se viver. Ser observado em qualquer lugar a que se vá. Ser alguém que as pessoas anseiam por possuir, e estar habituado a tal sensação; ser desejado tão imediatamente, com tanta frequência, que a própria pessoa nunca soube o que ela mesma talvez desejasse.
E o mais 
incrível, como poderia saber eu que ele um dia seria meu?  E que apesar de todo o desejo alheio, o meu era o único que o atraía? Espero que você siga decifrando cada uma das minhas pequenas transformações, como mágica. Que continue a ler em braile a invisibilidade das minhas afliçõesQue consigamos desvendar intenções alheias em um só olhar, para que possamos nos proteger de qualquer forma não sincera de  aproximação. Que saibamos o quão especial somos como indivíduos e o quanto isso nos torna uma conjunção escrita em caixa alta. Queira me fazer feliz, não para mostrar aos outros o quão feliz é quem está ao seu lado, mas que o faça pelo prazer em me ver sorrir. Que meu olhar percorra cada parte do teu corpo e que leve consigo a suavidade do meu toque. Que eu descubra, conheça e decore-o em sua completa peculiaridade, para que – se longe – eu possa acessar sua anatomia em meus arquivos de memória afim de minimizar a angústia da saudade.
Bú? E assim o nosso amor há de se mentar encantadoramente espontâneo - pena que isso não é real, não existe pra mim. (no final tudo são lágrimas de uma suicida)