Até que me esgote a voz


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Uma Nova Resende

Há por baixo da superfície rachaduras, ressentimentos, alianças que ameaçam a base de nossas vidas, como se a qualquer momento nosso mundo pudesse desabar; a morte é só a morte, e ninguém a entende.
Por isso, por não entender, queria poder dizer eles não partiram naquele dia, que como seres encantados tiveram as suas vidas físicas perpetuadas nas minhas férias; que subitamente eles apareceram na minha noite de natal, assim como eu havia pedido ao Papai Noel; que não choro toda noite pensando nas grandes pessoas que parei de compartilhar a presença; queria poder dizer que soubemos lidar com a morte e que essa cidade continua sendo meu sonho de verão...mas infelizmente a verdade é oposta, só há uma Nova Resende, e eu não pertenço mais a ela e nem eles.
Infelizmente eles partiram, e não há fé, não a força ou desejo que os façam voltar; atravessaram o espelho azul que há em cima de nossas cabeças, levando consigo as belas memórias e os bons frutos, e foram partilhar o amor que conquistaram com as belas estrelas que brilham no céu aberto. Escandalizadas com a constatação de que o amor existe na Terra, algumas estrelas saltaram do céu caindo no mar; as estrelas-do-mar agora sabem com clareza de um fato que o amor existe mas insistem em não acreditar nele.
Eu sei que Papai Noel não existe, que lágrimas só aumentam a dor, que saber lidar facilita a situação. E é por tudo isso que gosto de pensar que eles se foram naquele dia, e que viraram um pedaço de céu azul.
Gosto de pensar que gotas de chuva, são a forma que eles encontraram de contato comigo tanto para broncas quanto para carícias; acalma-me imaginar que eles me apoiam, fortalecem-me, guiam-me através dos raios de sol que incidem a minha janela e minh'alma; acalenta-me supor que a prova da oração diária deles está na lua, que brilha nas noites sombrias de tristeza e solidão.

Bú? A memória e a morte têm misteriosos jeitos de habitar a vida. De repente, a morte. A saudade. A lembrança dolorosa, levantada com o cheiro da chuva. Com a melodia que uma voz costumava cantarolar. De tudo, fica a vontade de lembrar e o medo de esquecer. Um rastro da morte ecoando na vida. Fica a vontade de esquecer a morte, de vencê-la irremediavelmente.


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Ser bem-sucedido: eis a teoria

A admiração contemporânea é uma simples miopia
Vivemos em uma sociedade sombria. O sucesso, sósia do talento infelizmente tem, ao menos, um ingenuo que nele crê  facilmente: a história.
Mas nele há algo de odioso, que não se aprende nas aulas nem nos livros: o sucesso conta com uma armadilha, ele se assemelha com o merecimento, é isso que engana os homens.

Bú? Ter êxito, eis o ensinamento destilado em gotas a gota pela corrupção que avança

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Antigüidade é posto temos que respeitar


...Dona Canô chamou, eu vou...
O chamado de Dona Canô eu não posso negar!


Bú? Há no céu um brilho novo daquela que fez gerar arte na Terra, há na Terra algumas lágrimas por aquela que fez gerar melodia no nosso cotidiano. Na no Universo uma fé que ainda nos faz crer na beleza do som, na prosperidade da voz, na transcendência das letras; Dona Canô atravessou um rio cheio, feito de lágrimas pela sua partida.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

arquitetura, que é ao mesmo tempo obra de arte e lugar para se viver e trabalhar.

Ninguém pode homenagear melhor o artista do que sua própria arte.
Nada que eu escreva terá uma grandeza tão significativa e transformadora, quanto os esboços que ele fez.
05/12/2012
Baudelaire disse que a surpresa, o espanto são as características básicas de uma obra de arte. É o que penso. Camus diz em O Estrangeiro que a razão é inimiga da imaginação. Às vezes, você tem de botar a razão de lado e fazer uma coisa bonita.
Oscar Niemeyer

A luz deu a escuridão

Parto, parto-me.
Temo o tempo, que ele se prolongue na espera por um acontecimento que se esqueceu/reverteu. Temo que o tempo tenha virado biologia sincronizada com a minha falta de cronologia. Temo que a vida tenha desfeito o sangue em água.
Meu corpo é como um aquário sem água, e essa água que tenta despejar sobre mim tem que ser como um liquido sem margem para se acomodar. Evapora e vire ar, que me inspire dúvidas mas que jamais seja uma certeza que me pese os ombros, que da qual eu sou o algoz.
Não caia gota risonha da infertilidade, seque terreno choroso da fertilidade.

Bú? O que fez a mocinha, estragou todos os planos. Foi assim, foi o fim. Foi então, que quebrou o que tinha, Lua cheia sobre os campos avisando que era o fim.  (Murmurando vem, entre nós)

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Vamos falar de solidão

A quem diga que eu não nasci pra ser amada,
a quem diga que eu hei de viver só.
E por mais que eu tente fazer o laço,
Ainda que eu tente atar o nó,
Eu estou completamente só.

Mas eu tentei juntar
Eu quis me unir,
mas a cada passo perto de ti
eram dois longe de mim.
E então eu tive que seguir
outro caminho sem você,
e agora eu tenho que escutar
que só a solidão
pode me acompanhar.

Bú? Eu rezo para esquecer, eu peço para esquecer...

domingo, 9 de dezembro de 2012

RALF

"Os cães são o nosso elo com o Paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma pequenina árvore numa linda tarde, é voltar ao Éden onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz."

"Cães não precisam de carros luxuosos, casas grandes ou de roupas chiques.
Água e alimentos já são o bastante. Um cachorro não liga se você é rico ou pobre. 
Esperto ou não. Inteligente ou não.
 Dê o seu coração e ele dará o dele. De quantas pessoas podemos dizer o mesmo? 
Na realidade um cachorro não merece ser chamado de 'cão' muito pelo contrário, ele é um anjo em nossas vidas."




Bú? E da casa, enfim, só resta a casa; foram-se os anfitriões e agora se vai o guardião fiel e atrapalhado.
Até que a morte os separe, contemplou até mesmo o Ralf que morreu no dia do casamento dos meus avos.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Uma história escrita a dois

Era uma vez um garoto e uma garota nessa história ele é rico e mimado, pode desejar ter tudo e tem tudo que deseja; ela é pobre e e mal tem o necessário.
Ele podendo tudo dominar, almejava possuir o céu; ela tendo pouco e sem poder para sonhos na hora de dormir, enamorava um estrela que brilhava no céu aberto.
Ele achava que o céu todo era pouco, e conquistá-lo não exigiria trabalho árduo; ela achava que a estrela era inalcançável, porque brilhava longe e, que poder contemplar aquele astro, através da sua janela beira mar, no céu já era um presente concreto. Com o tempo ele descobriu que nem mesmo muito trabalho era o bastante para ele chegar ao céus, imagina conquistá-lo, dominá-lo; contratou então muitos profissionais para ajudá-lo e desenvolveram uma pequenina máquina que o permitia voar.
A máquina era feita de balões coloridos de festa presos a sua bicicleta, sem muitas experimentações e com a engenhoca incompleta decidiu voar, era madrugada. Ao mesmo tempo que ele começou a pedalar para ganhar altura, a menina via sua adorada mudar de direção e resolveu segui-la.
Enquanto o menino ficava mais alto a estrela parecia ficar mais baixa, e o céu emocionado com a possibilidade de ser dominado e de perder sua pequena-grande brilhante chorou, lágrimas salgadas que se convertiam em uma chuva pasmada, que a partir da suspensão caia assustada!
A chuva fez a estrela cair mais rápido, e o menino perder altura; rapidamente estavam os dois no mar, a estrela e o garoto.
A menina correu da praia até chegar além da rebentação, encontrou, então, um menino brilhante e uma estrela um pouco mais opaca mas ainda muito especial. Tinha que escolher, ou possuiria um sonho material  - que a muito tempo desejava - ou salvava uma realidade atual.
Escolheu por salvar o menino - mas deixando para trás a engenhoca, hoje caminha com ele pela praia, ajudando-o a voltar pra casa!
Ela sabe que escolhendo por ele abdicou de seus desejos de outrora, mas isso não significa que ela pode partir deixando seguir sua jornada só para ir atrás de um novo sonho, como, por exemplo, uma máquina pouco eficaz que a leve para os céus em busca de uma nova bela estrela cadente!


Bú? Uma contação de história regada a miXirica

Queda Livre

Quando nos conhecemos a cidade se derretia sob nós, enquanto nos refrescávamos com um suco peculiar e  uma amizade hipócrita. Deveríamos saber que nada se consolida em um chão que se desfaz...
É engraçado como descobrimos as coisas, é complicado como negligenciamos fatos a nós mesmo.
De olhos abertos deveríamos ver, mas é de olhos bem abertos que fingimos não notar as verdade latentes que transpassam nossa realidade.
Nós não somos infelizes, o que não significa que manteremos em nós durante muito tempo essa quase felicidade que nos basta agora. Uma quase alegria que se satisfaz com passos atrapalhados e uma dança patética na sua casa, uma semana - de trabalho - gasta na relva com flores sob um luar só para nós, a primeira vergonha dos pés, todos os filmes que não terminamos de ver e os que nem começamos.
E então em uma manhã você me vê escovando os dentes e andando pela casa, imediatamente deveria saber, pela grandiosa certeza que surge pelas pequenas descobertas, que é completamente feliz.
Mas o fato d'eu te querer e você me desejar também, mesmo com tempo e espaço disponíveis para investigarmos essa vontade, não basta para fazermos disso o melhor que pudermos. Já estamos sob céus nublados e a tempestade já chegou após longas ventanias; queria poder me fazer crer, agora, que se tivermos cuidado e (a)ventura - principalmente ventura - seguiremos uma estrada onde eu possa segurar a sua mão.
Posso fingir que não sei se há de dar certo, mas a verdade é que minhas pupilas já foram dilatadas pelo lampião do fato. Daqui a um tempo a gente se encontra em uma mesa de bar, eu mexerei o suco com o canudo enquanto você quebra alguns palitos sobre o prato, pequenas atividades que nos dedicaremos com inútil afinco, adiando o momento de dizer o que deve ser dito.
Não é fácil, tão pouco impossível, mas se existe essa esperança intensa que chamamos de paixão, então não  há nada mais sensato a fazer do que soltarmos as mãos do trapézio talvez a gente caia no chão, talvez a gente saia voando. O verdadeiro encontro só se dá ao tirarmos os pés do chão, porque a vida não tem o menor sentido se não dermos um salto.

Bú?  Entre o beijo de cinco minutos atrás e a compreensão do fim, pode caber uma vida inteira.