Até que me esgote a voz


sábado, 8 de dezembro de 2012

Queda Livre

Quando nos conhecemos a cidade se derretia sob nós, enquanto nos refrescávamos com um suco peculiar e  uma amizade hipócrita. Deveríamos saber que nada se consolida em um chão que se desfaz...
É engraçado como descobrimos as coisas, é complicado como negligenciamos fatos a nós mesmo.
De olhos abertos deveríamos ver, mas é de olhos bem abertos que fingimos não notar as verdade latentes que transpassam nossa realidade.
Nós não somos infelizes, o que não significa que manteremos em nós durante muito tempo essa quase felicidade que nos basta agora. Uma quase alegria que se satisfaz com passos atrapalhados e uma dança patética na sua casa, uma semana - de trabalho - gasta na relva com flores sob um luar só para nós, a primeira vergonha dos pés, todos os filmes que não terminamos de ver e os que nem começamos.
E então em uma manhã você me vê escovando os dentes e andando pela casa, imediatamente deveria saber, pela grandiosa certeza que surge pelas pequenas descobertas, que é completamente feliz.
Mas o fato d'eu te querer e você me desejar também, mesmo com tempo e espaço disponíveis para investigarmos essa vontade, não basta para fazermos disso o melhor que pudermos. Já estamos sob céus nublados e a tempestade já chegou após longas ventanias; queria poder me fazer crer, agora, que se tivermos cuidado e (a)ventura - principalmente ventura - seguiremos uma estrada onde eu possa segurar a sua mão.
Posso fingir que não sei se há de dar certo, mas a verdade é que minhas pupilas já foram dilatadas pelo lampião do fato. Daqui a um tempo a gente se encontra em uma mesa de bar, eu mexerei o suco com o canudo enquanto você quebra alguns palitos sobre o prato, pequenas atividades que nos dedicaremos com inútil afinco, adiando o momento de dizer o que deve ser dito.
Não é fácil, tão pouco impossível, mas se existe essa esperança intensa que chamamos de paixão, então não  há nada mais sensato a fazer do que soltarmos as mãos do trapézio talvez a gente caia no chão, talvez a gente saia voando. O verdadeiro encontro só se dá ao tirarmos os pés do chão, porque a vida não tem o menor sentido se não dermos um salto.

Bú?  Entre o beijo de cinco minutos atrás e a compreensão do fim, pode caber uma vida inteira.