Até que me esgote a voz


terça-feira, 5 de abril de 2011

Óbvia

Decifrar-me é algo muito intuitivo, sempre fui óbvia. Esforço-me loucamente para esconder meus sentimentos, e assim os deixo evidentes.
Eu sorrio com os olhos, portanto é fácil notar o quão feliz você me faz; eu tento disfarçar com o lábio e, ao morde-lo, fica claro que seu afeto me comove; eu repreendo com as sobrancelhas (sim, sobrancelhas), meu repudio é simples e direto.
Os sentimentos e sensações nascem em mim, como rosas nascem em um jardim. Seu toque me faz desabrochar; meus espinhos - resquícios de um coração destruído no passado - te pedem cuidado ao me manejar; o silêncio é cômpar a um botão de flor, muitas vezes é essencial para o meu florir e meus erros são como folhas secas, murchas que o vento junto com o tempo há de levar embora.
Eu beijo com o meu coração que é às vezes pura arritmia - é a genuína inquietação, de duas bocas reunidas pela desordem, de muitos sentimentos; às vezes a cadencia é plácida, quase silenciosa, imperceptível - de quem aprecia com consciência o enlace momentâneo de duas almas através de dois lábios; e muitas vezes é o ritmo apropriado - a intensidade correta da pressão arterial sentida na boca, equivalente, a paz e a tranquilidade que um sentimento merece.
Não é tão difícil desvendar o meu infinito particular e eu não impeço ninguém de entrar, minhas armaduras são de vidro e se desfazem no mais passageiro olhar, minha espada é uma feição terna que não te chama e nem te exclui. Guardo-me com o sopro de um suspiro, mas também é assim que me entrego; defendo-me com a suavidade de um olhar, tal qual ataco; previno-me com o silencio e está é também minha antevisão.


 Bú? "Por que a gente é desse jeito, criando conceito pra tudo que restou?"