E tanto tempo terá passado, depois, tudo se tornará cotidiano
e a minha ausência não terá nenhuma importância.
Serei apenas memória, alivio (...)
Bú? Quando, daqui a pouco tempo, a música que me dedicastes no rádio não tiver mais importância e o carinho que te dediquei na festa não tiver mais palpável.
terça-feira, 28 de maio de 2013
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Heliotrópios ao futuro luar
Por mais que eu
ande
Nada em mim imagina
O que é que tal
menina tão pequena
Está fazendo em uma cidade tão grande.
Leminski
Era, enfim, dia de sorrir. Os lábios foram,
portanto, se abrindo horizontalmente, assim, lentamente, numa timidez tenaz.
Imagina! Aquilo era para ela propriamente uma nudez. A alvura dos dentes
contrastava com o negrume da pele e da vida, era de doer os olhos, mas -
naquele instante - ela não se importava.
Todas as manhãs despertava acreditando que aquele dia em especial lhe
poderia ser uma espécie de prelúdio, como um desses cartazes que anunciam
grandes espetáculos que futuramente serão exibidos. Experimentava, então, uma
felicidade clandestina. Por isso, era, então, fragmentada; vinha aos poucos e
ela aceitava cada dose sem nunca saber quando viria outra.
Embriagava-se e saia cambaleante sem perguntar quanto custava.
Mal sabia que não haveria escapatória, que a vida lhe seria uma agiota
cruel. E tirana que era, não faria nada sozinha, não daria um só passo sem sua
capanga fiel: a realidade.
Diante da
ferocidade cotidiana, a menina, cuidadosa, passou a guardar os sonhos embaixo
do travesseiro, mesmo sabendo que eles poderiam nunca acordar, mesmo sabendo
que poderiam sufocar. Tamanho era o medo de perder, que preferia não ter. Hoje
em dia é fugitiva de si, fora acusada de facínora, condenada por ter
assassinado os próprios sonhos. Há quem diga que ela os viu, passivamente,
agonizando até a morte e nada fez.
Um vizinho,
fofoqueiro, dizia que durante um tempo a ouvia gritar antes de dormir: “Já está na hora d'eu
acordar para os meus sonhos, de fechar os olhos e viver o dia que eu criarei
com a mente.” E então ele deduzia: Quando encaramos a noite como o dia da alma,
muitas coisas mudam de significado. Depois de um tempo, a ouvia gritar, logo
após acordar: “Está na hora de acordar, e por a alma para dormir.”
O vizinho,
fofoqueiro, ponderava, nas questões alheias, suas possibilidades: a verdade é
singular, é difícil manter os pés no chão enquanto a mente voa; a verdade
é plural, às vezes, precisamos deparar com um beco sem saída para descobrirmos
que o caminho é pro outro lado.
Bú? Preocupemo-nos com o que põe em
perigo a nossa alma
Sobre flores (não sob pedras)
E sem poder ver as horas, ela as tocou. Seus dedos acariciavam as pétalas do tempo, era efêmero aquele minuto preso na parede e o tempo que tateava era duradouro. Pensava assim, pois compreendia: o que é belo é tão útil como o que é simplesmente útil, afinal, não enxergava os dois, e via ambos de maneira diferente da maioria. Sua visão era outra. Cegueira branca é de quem vê e não encara o mundo com olhos nos olhos. Seu olhar branco mirava o nada, imenso vazio sem cor. E, no entanto, era como se enxergasse o mundo, janelas da alma abertas.
Independente de qualquer prisma, respeitava muito o ver e a falta de visão tanto dos sábios quanto a dos ignorantes. Sem nunca desrespeitar esses ou aqueles, todas as tardes, durante a primavera, com um regador de latão cor violeta (que ela com sua escuridão, doce, via verde ou cinza - não sabia explicar direito), regava as horas que ela podia tocar e que os vizinhos sentiam recender na estação
Bú? O futuro luar estará incrível, uma maravilha! Ainda não posso dormir, e o perfume dos heliotrópios da Sra. Rosa. Será que esse belo pássaro, pintado com um azul vivo, consegue sentir?
Procrastinar
Tua voz, uma potência. Ouvir teu grito por mudança, teus sonhos por arritmia, é como te ver desperto em minha cama.
Vejo o que te moves, e tu és movido pela transformação; é como se pudesse abrir os olhos - a cada piscadela durante uma conversa política - e te encontrar no meu quarto, tu estas lá, olhando-me com teus belos e enormes olhos cor do infinito.
Era bonito demais acordando.
E é bonito demais esse homem que vejo despertar - ainda que diletante - a cada conversa. É uma beleza que não sai do azul. Essa beleza vem de dentro, dessas que os olhos não costumam perceber e com a qual as pessoas não costumam se importar.
Você falava alguma coisa, quando eu massageei teus pés - na minha imaginação. Na minha cabeça foi um contato breve; não podia naquele instante, firmar minha mente e meus olhos sobre teus calos, ásperos, que eu tanto gostei de acariciar. É comum que eu sinta medo de concretizar vontades. Senti receio de tocá-lo, portanto só imaginei.
Senti receio de perder no meu repertório de imagens teus olhos fitando-me; recordei. Mas minha memória, transfigurada, agora gosta de lembrar ao contrário: Eu te olhando enquanto você acorda.
Bú? “o que foi, meu ammm…?!”. Tua cicatriz assassinou o adjetivo antes mesmo de seu fim, mas levou consigo qualquer sentido antes implícito.
Vejo o que te moves, e tu és movido pela transformação; é como se pudesse abrir os olhos - a cada piscadela durante uma conversa política - e te encontrar no meu quarto, tu estas lá, olhando-me com teus belos e enormes olhos cor do infinito.
Era bonito demais acordando.
E é bonito demais esse homem que vejo despertar - ainda que diletante - a cada conversa. É uma beleza que não sai do azul. Essa beleza vem de dentro, dessas que os olhos não costumam perceber e com a qual as pessoas não costumam se importar.
Você falava alguma coisa, quando eu massageei teus pés - na minha imaginação. Na minha cabeça foi um contato breve; não podia naquele instante, firmar minha mente e meus olhos sobre teus calos, ásperos, que eu tanto gostei de acariciar. É comum que eu sinta medo de concretizar vontades. Senti receio de tocá-lo, portanto só imaginei.
Senti receio de perder no meu repertório de imagens teus olhos fitando-me; recordei. Mas minha memória, transfigurada, agora gosta de lembrar ao contrário: Eu te olhando enquanto você acorda.
Bú? “o que foi, meu ammm…?!”. Tua cicatriz assassinou o adjetivo antes mesmo de seu fim, mas levou consigo qualquer sentido antes implícito.
Existe algo de mágico na distância
Tenho estado distante de todos em muitos sentidos, mas nunca estive tão perto de mim. O mundo ao meu redor dança e brinca na frente dos meus olhos, só cabe a mim aceitar e entender aqueles ou esses encontros inesperados.
E ir em frente significa me desprender de todo o meu universo cognitivo para me jogar em um mar de mudanças, imergir junto à melhor versão de mim mesma. Não quero descobrir que esse meu eu lapidado continua cometendo os mesmos erros, estúpidos.
Sei que há amigos distantes que se chamam irmãos, irmãos próximos que não são amigos. Mas não quero mais me fechar, ou fugir, nem me aterrorizar por tão pouco.
Quero desarmar-me frente a tudo que tenha potencial para me cativar. Quero viver, arriscar, experimentar. Não Quero pensar em perder meu tempo com alguém que não tenha percorrido essa mesma trilha, com quem não esteja pronto, com quem se doa dessa maneira sempre tão fragmentada.
Porque, quando vale a pena, só alcançar não basta. Tem é que segurar forte entre os braços.
Bú? O abraço tem que ser por inteiro.
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