E sem poder ver as horas, ela as tocou. Seus dedos acariciavam as pétalas do tempo, era efêmero aquele minuto preso na parede e o tempo que tateava era duradouro. Pensava assim, pois compreendia: o que é belo é tão útil como o que é simplesmente útil, afinal, não enxergava os dois, e via ambos de maneira diferente da maioria. Sua visão era outra. Cegueira branca é de quem vê e não encara o mundo com olhos nos olhos. Seu olhar branco mirava o nada, imenso vazio sem cor. E, no entanto, era como se enxergasse o mundo, janelas da alma abertas.
Independente de qualquer prisma, respeitava muito o ver e a falta de visão tanto dos sábios quanto a dos ignorantes. Sem nunca desrespeitar esses ou aqueles, todas as tardes, durante a primavera, com um regador de latão cor violeta (que ela com sua escuridão, doce, via verde ou cinza - não sabia explicar direito), regava as horas que ela podia tocar e que os vizinhos sentiam recender na estação
Bú? O futuro luar estará incrível, uma maravilha! Ainda não posso dormir, e o perfume dos heliotrópios da Sra. Rosa. Será que esse belo pássaro, pintado com um azul vivo, consegue sentir?