Por mais que eu
ande
Nada em mim imagina
O que é que tal
menina tão pequena
Está fazendo em uma cidade tão grande.
Leminski
Era, enfim, dia de sorrir. Os lábios foram,
portanto, se abrindo horizontalmente, assim, lentamente, numa timidez tenaz.
Imagina! Aquilo era para ela propriamente uma nudez. A alvura dos dentes
contrastava com o negrume da pele e da vida, era de doer os olhos, mas -
naquele instante - ela não se importava.
Todas as manhãs despertava acreditando que aquele dia em especial lhe
poderia ser uma espécie de prelúdio, como um desses cartazes que anunciam
grandes espetáculos que futuramente serão exibidos. Experimentava, então, uma
felicidade clandestina. Por isso, era, então, fragmentada; vinha aos poucos e
ela aceitava cada dose sem nunca saber quando viria outra.
Embriagava-se e saia cambaleante sem perguntar quanto custava.
Mal sabia que não haveria escapatória, que a vida lhe seria uma agiota
cruel. E tirana que era, não faria nada sozinha, não daria um só passo sem sua
capanga fiel: a realidade.
Diante da
ferocidade cotidiana, a menina, cuidadosa, passou a guardar os sonhos embaixo
do travesseiro, mesmo sabendo que eles poderiam nunca acordar, mesmo sabendo
que poderiam sufocar. Tamanho era o medo de perder, que preferia não ter. Hoje
em dia é fugitiva de si, fora acusada de facínora, condenada por ter
assassinado os próprios sonhos. Há quem diga que ela os viu, passivamente,
agonizando até a morte e nada fez.
Um vizinho,
fofoqueiro, dizia que durante um tempo a ouvia gritar antes de dormir: “Já está na hora d'eu
acordar para os meus sonhos, de fechar os olhos e viver o dia que eu criarei
com a mente.” E então ele deduzia: Quando encaramos a noite como o dia da alma,
muitas coisas mudam de significado. Depois de um tempo, a ouvia gritar, logo
após acordar: “Está na hora de acordar, e por a alma para dormir.”
O vizinho,
fofoqueiro, ponderava, nas questões alheias, suas possibilidades: a verdade é
singular, é difícil manter os pés no chão enquanto a mente voa; a verdade
é plural, às vezes, precisamos deparar com um beco sem saída para descobrirmos
que o caminho é pro outro lado.
Bú? Preocupemo-nos com o que põe em
perigo a nossa alma