Até que me esgote a voz


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Entre 0 e 1

Eu era um bocadinho,
um tantinho pequeno, quase nada,
como um grão extremamente pequenino,
uma levíssima pitada que mal se sente o cheiro, o sabor, que mal se vê a cor,
um restinho quase invisível, que passava quase desapercebido, que era praticamente inexistente.
Como um ponto minusculo em um universo gigantesco de linhas, letras, acentos, em meio aos livros.

Isso tudo, que era quase nada, era eu;
era a minha alegria, era a minha espera ansiosa,
minha torcida insistente, meu momento único de protagonismo.

E então eu cresci, tornei-me enorme, gigantesca, virei uma gota.
Um gotícula na verdade, um gotinha, um pingo d'água.
Uma sinal de existência,
Uma prova de vida.
Um sentimento.
Uma sensação.
Lágrima.

Tanto medo me inundou a alma, tornando-me maior; pois as alegrias que me habitavam eram tão pequitititas que eu sempre fui minuscula, nunca esperei muito.
Nunca quis a lua, eu só pedia um tantico de glitter que se parecesse com estrelas quando espalhados em uma superfície escura como a noite.
Pés no chão, é assim que eu caminho. Eventualmente eu pulo poças d'água, e quando estou no alto do pulo, finjo que voei, que flutuei; mas eu sei de onde saiu o impulso e eu sei onde chegarei depois na queda.
E é por isso, que me doí tanto deparar com a possibilidade de não encontrar alguém que me forneça glitter, alguém que olhe repreensivamente os meu pulos.
Eu sobrevivo de fugazes fugas de  realidade; nada muito transformador, mas tudo muito intenso.
Eu preciso imaginar que há algo a mais além da curva. Não que eu acredite em um pote de ouro além do arco-iris, mas sim em uma estrela-cadente além do prédio.

O caminho foi longo, todo ele em linha reta. E na minima esperança de chegar em parte curvilínea da rota, deparei-me com a realidade: essa estrada não tem bifurcação. Lágrima, a imensidão da gota.
E assim se foi mais uma alegria misera, assim nasce uma tristeza sem tamanho, uma gotícula que cai do olho, um universo que sai do peito.
Não há escolha, sigo na sequência.
Tentando andar em espirais na linha reta, até encontrar uma curva real; até ver uma estrela-cadente na cidade de pedra.

Bú?