Até que me esgote a voz


sábado, 28 de fevereiro de 2015

asfalto, pedra, pé e giz.

A construção é um dos trabalhos mais difíceis do homem, mais incríveis e necessários também. É feita de etapas, partes, você pode inovar, reinventar, reaproveitar, recriar; mas nunca evitar ou pular passos. Ela é feita do calos das mãos, mãos de obras pesadas, que tem um trabalho árduo de erguer montanhas em planícies, criando lares em blocos de concreto.
A construção é um dos trabalhos mais magníficos, porque está no agora e no amanhã, é uma corda no precipício unindo dois lados: destemidamente impetuosa, ainda que sutil, cuidadosamente disponível, ainda que sutil.
A construção é um caminho, é um percurso, um estrada sendo atravessada; ela está nos pés cascudos que enfrentam o calor do asfalto. Pés que vão longe, que param, pés que buscam a terra como a cabeça busca ao céus. Seguimos. Como uma corda, que luta contra a gravidade, que se mantém sempre é pé, buscando unir as nuvens às águas: arrebatadoramente livre e determinadamente estática.
A construção é uma página, de um grande livro - há muito mais pra virar, é a primeira linha escrita de um poema - há uma métrica para seguir, é a primeira palavra da pergunta que ainda busca um interrogação. Feito a mãos, dentes, língua, dedos e lábios, pretensiosa e por isso preciosamente necessário.
Um processo, por vezes curto e rápido, dentro de uma metamorfose eterna. A construção.

Em um prédio, no final da rua, com dezenas de lares, em um dos quartos de uma das casas um garoto lê um livro. Ele foi escrito em uma casa, em outra cidade - é preciso pegar a rodovia para chegar lá - por uma mulher, com mãos que amam maçãs frescas. Maçãs plantadas e colhidas por um pequeno produtor agrícola de uma cidade vizinha; nessa cidade há um ilustrador que um dia leu o livro da Senhora que ama maçãs. Sem nunca a ver, desenhou-a em uma parede de uma rua qualquer, era linda no desenho, todo feito de letras. O pai, da menino que do alto do prédio lia em seu quarto,  um dia fez uma visita turística a cidade, viu as maçãs do plantador nas mercearias da cidade, viu a arte do ilustrador na parede de uma rua; levou de lembrança uma caneta para filho.
Que um dia, um pouco mais velho, escreveu no chão da rua: Eu serei construtor. E sobre suas próprias palavras, andou, seguiu, partiu e foi.

Bú?