Até que me esgote a voz


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Condensação dos ventos


Onde a poesia parece dissolver e se refaz em seguida: é lá que a gente se encontra. Não junto. Você se encontra com você e eu comigo mesma. Suba as escadas e abra a porta, observe as coisas que você nunca viu antes; quero que reconheça essa casa mesmo no escuro.
É na tentativa primata de seguir sendo que podemos nos olhar, reconhecer e, quem sabe, furar o cerco dos olhares que não nos olham. Talvez façamos algo que fira a visão indolente dos que nos ignoram tão facilmente. Eles foram se encantando e se envolvendo; depois, é claro, de alguns truques. E então, o caminho enveredou por rumos desconhecidos, mas você já havia domado seus olhos para os caminhos abstratos. Atravessou a avenida, carregando o vento sobre seus ombros, e a encheu de memórias. Você está chegando no começo, esse é o começo de algo que está prestes a acabar.
Primeiro segredos, histórias e músicas, mas a verdade teve que ficar para outro momento, um momento de menos honestidade. 
Foi essa hora que eu segurei e suspendi no alto de nossas cabeças, como luz de idéia ou lamparina discreta, a clareira que se fez na impossibilidade fértil. E você, viril, fecundou de vontades meu ensejo estéril, obcecado. Nasceu um rebento que não pude conformar.
Desculpe. 
A quem possa ferir esse afeto tanto, meu lamento. É que meu querer não conhece amenidades. Precisava de você. Não menos. 
É que havia demasiada solidão e saudade no espaço do vento entre nós naquele abraço. Tinha cheiro de amor-recém-chegado o seu perfume no final do dia, tinha uma eu impressa na sua pupila, e um você impresso no meu olho inteiro. 
O barulho da vida, do lado de fora da minha janela, pouco me importava; o que me domava as rédeas do impulso eram os ruídos vindos de dentro:  ranço, apego e desejo, merecidos, imerecidos apelos.

Bú? Ela matava a si aos poucos, diariamente, essa era sua função. Perto de matar a outra, numa luta perdida, para ambas, desfaleceu com a terceira respiração. - O caráter muda tudo.
Suas verdades, minhas mentiras. 

Oliveira

Era uma vez uma Isolda, que escrevia diariamente para  o seu Tristão.
Ela escrevia, escrevia todos os dias. A cada dia uma nova carta para seu amado.
Sentia-se culpada por não estar com ele, ele não sabia o quanto ela gostava dele e ela temia que ele não fosse descobrir.
Ela escrevia cartas todos os dias, uma por dia, nelas deixava um pouco mais claro o seu enorme carinho; orando para que ele as pudesse ver e retribuir com ao menos um enorme abraço e um belo olhar.
Ele, guerreiro que era, lutou com natureza, guerreou com sua rival - medieval -  doença. Venceu.
Como um príncipe, pequenino, ele retribuiu as cartas da sua querida Isolda. Sorriu, riu, beijou e abraçou.
Abriu os olhos e fitou-a profundamente. Seu olhar grato, que olha com a alma de príncipe, tomava-a nos braços como um grande amigo e um doce amor; ela raposa, cativada que estava, dispunha de qualquer gratidão entre lágrimas.

Bú? O verdadeiro homem mede a sua força, quando se defronta com o obstáculo. (Antoine de Saint-Exupéry)
O grande guerreiro, tem se mostrado cada vez mais forte e digno dessa força, que usa para sorrir e nos fazer sorrir, para vencer! - "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas." ♥

VINTEUM

"Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar"





Bú? Ghost. 21111983-16/02 (2121)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Oirátigras - Zopellerdnaa

Não, não fomos companheiros ocasionais de viagem. Sabes bem que somos bem mais do que isso. Mesmo quando o teu coração se enche de dúvidas, mesmo quando os ciúmes te perfuram a Alma, mesmo quando me procuras e não encontras. Mesmo quando o céu se cobre de nuvens e não vês o Sol, sabes que ele lá está. Queria ser capaz de preencher todo e qualquer vazio que te causasse medo. Queria ser capaz de te orientar, dar sentido à tua vida e um destino à nossa viagem. Queria ser capaz de ocupar cada pedacinho de ti, estar em ti a toda a hora e a todo o momento. Mas a vida é feita de procuras, buscas, caminhadas. E os vazios, os medos e as dúvidas fazem parte essencial e determinante da vida. Por isso sei perfeitamente que, por maior que fosse esta minha vontade, precisarias sempre desse vazio para me encontrar, para me procurares.

Bú? Carta a um Romeu inseguro, ass.: a NÃO Julieta.

domingo, 28 de outubro de 2012

Super Heroi

Eu sei quem tu és.
Sei o monstro que encerras dentro de ti e que tens medo de mostrar, por isso finges que ele não existe. O problema é que o monstro se alimenta de sombras, cresce na escuridão. Vai crescer até não o conseguires conter mais e, nessa altura, vai fazer sentir a sua presença com uma intensidade igual à energia que tu dedicaste a escondê-lo e a sufocá-lo no mais íntimo de ti. Eu sei precisamente quem tu és. Sei o que te move. Sei de onde vens. Sei aonde pretendes chegar. Talvez não saibas mas dentro de mim tenho um monstro tal e qual o que guardas dentro e ti. Mas o meu monstro é alimentado com luz e não trevas. O meu desgraçado monstro está enfraquecido, controlado, debilitado; o destruo quando o coloco em combate, tu o fortaleces quando o esconde da luta.Eu sei quem és. Não escolhi saber. Até tentei não querer saber. Mas há coisas que vão além da nossa compreensão e da nossa vontade. Não tenho medo do teu monstro. Deixa-me ajudar-te.
Bú? Homem livre, tu sempre gostarás do mar [Charles Baudelaire (1821-1867)]  Não quero te domar, não quero que abandones o mar; quero que viajes de olhos abertos, pois todos podem te a vistar a beira da praia. 


"De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés"

Dernier Frisson.


Suicide Girl and The Ghost

Ela é uma eterna suicida e ele é um fantasma.
Ambos estão presentes, um ao outro, um na constância e outro na ausência.
O que os mantém juntos? A vida e, consequentemente, a morte. Enquanto um procura um modo de viver, o outro procura um modo de morrer, definitivamente... Só que a vida é a soma e multiplicação, a divisão e a diferença, é a uma pequena porcentagem de momentos, e a morte é o resultado.
Ele tem fé, ela tem medo; acreditam que haverá um resultado nessa vida, mas se questionam o que denunciará que o resultado está prestes a chegar...
Como começará o dia, ao nascer uma vida? O que de fato anunciará o Universo, quando vier o resultado, quando vier a morte?
Qual será a última sensação?
21gramas é o peso que você perde ao morrer, 21gramas é o peso de uma vida.
Quanto pesará um corpo perto da sua morte?
Quantos gramas ganhará um corpo, quando estiver mais próximo da vida?

Bú? 0 gramas.

sábado, 13 de outubro de 2012

Ilusão de ótica


As pessoas passavam e olhavam aquela pintura abstrata, a qual nada de fato acontecia, só o ir e vir de olhares curiosos que chegavam e rapidamente partiam.
Ele resolveu ficar e fitá-la; ele olhava atentamente aquela pintura. Notou suas cores intensas e contrastantes, que pareciam lutar umas com as outras. As pinceladas eram tão firmes e, ao mesmo tempo, aparentemente aleatórias, que pareciam ferir a tela. Ele tecia todo o tipo de comentário a respeito da obra para si mesmo, enquanto os outros só passavam desatentos, perguntando uns aos outros onde ficavam os quadros realistas.
Eu, do meu lugar fixo, observava ele se aproximar silenciosamente; a passos cuidados como se ateasse o chão, ele chegou a minha frente. Via seus passos curtos, seu andar vagaroso e esperava ansiosamente que chegasse.
Já diante de mim, a algum tempo me fitando como poucos tiveram a audácia de fazer, achei que com a mesma calma você partiria. Mas com uma destreza inesperada você se fixou.
Um quadro abstrato sendo docemente fitado por observador peculiar; apetecia-me a sua calma passiva e o seu estar leve e direto.
Em alguns momentos ele olhava rapidamente ao redor, eu fingia não notar mas via seu interesse pelas outras pinturas, notava uma certa inveja que havia dele em relação aos outros transeuntes.
Ele se interessou por esse quadro abstrato, via em mim mais do que os outros costumam chamar de 'natureza morta'; mas seu interesse se fortalecia na sua insegurança.
Ele é inseguro, tem medo de tudo quase; teme a luz que incide sobre nós quadros, poderia mostrar ao mundo toda a beleza que há sobre nós e ele nos perderia; teme a falta de luz, poderia esconder temporariamente o que certamente notaria.
Ele ainda está aqui, noto sua insegurança no seu piscar de olhos - rápido e medroso, ele teme que eu parta nesse milésimo de segundo.
Adoro o seu medo, faz com que eu me sinta mais forte, segura, faz-me acreditar que ele estará sempre aqui, pois lhe ofereço segurança gratuita.
Investigo sua insegurança, pois ela torna minhas cores menos vivas; não quero que se faça presente só por não se achar capaz de analisar quadro melhor. Não quero que fique por acreditar que um quadro tão abstrato quanto a paixão já não desperta interesse alheio.
Enquanto ele me fita silenciosamente, enquanto ele teteia com seu olhar sutil, gosto de fingir que ele me diz:

"De real, basta o mundo. Eu quero é partir em busca do que é incógnito, improvável e incorreto. Eu vejo sentido no abstrato e, sim, muita vida no que muitos convencionaram chamar de 'natureza morta'. O que é mais abstrato do que a paixão? Ele não tem forma nem cor, mas é o que me faz parar o coração. A gente busca incessantemente essa sensação de enfartar de paixão, de sentí-la pulsando e estourando nossas veias. Que outra coisa nos leva a isso? O que mais justifica todos os poemas, todas as músicas, toda a angústia e inspiração do mundo? Só ela, a paixão. A pintura abstrata que eu aprecio como ninguém mais."

Bú? Delicadeza, a mais contundente resistência.