"Eu quero ficar só, mas sozinho, assim, comigo, eu não consigo. Eu quero ficar junto, mas sozinho não é possível"
A: - Oi!
B: - Alô?
A: - Tá ocupado?
B: - Um pouco, mas, pode falar, rapidinho!
A: - Ah...deixa, tudo bem, liguei para "não falar" com você!
B: - Tá triste?
A: - Sim, mas não quero conversar sobre a minha tristeza. Vamos falar sobre a sua alegria! Tá ocupado com o que?
B: - Estou em uma festa! Deu sorte, estou bem feliz mesmo.
- LONGO SILÊNCIO -
A: - É bem difícil "não conversar" em uma ligação. Sou uma fraude. Liguei, na verdade, porque não conseguia lidar com o meu silêncio solitário, que me presenteava com respostas - caladas - que eu não queria imaginar.
Meu silêncio, solitário, propôs a mim mesma um filme mudo e sem legenda, com diálogos sinceros e mesmo sem som e sem letras, eu sabia as falas na mais dolorosa e astuta gramática.
Já o silêncio que eu propus aqui, não tem respostas, são só perguntas. O teu não falar me enche de dúvidas, enquanto o meu me enche de certezas.
- LONGO SILÊNCIO -
(Ela tosse e ri, infrutiferamente, artificialmente)
- SILÊNCIO -
A: - O que você está pensando? Desculpe-me, não queria te perturbar com os meus "pensamentos pré-humanos". Ah! Eu e minhas teorias sobre o meu cérebro!
- SILÊNCIO -
A: - Diz pra mim, o que você tá pensando?
B: (Uma funda e longa respiração , áspera e asfixiante) Estou pensando em que resposta te dar que acalme, amenize todas as suas dúvidas palpitantes. E em que pergunta te fazer para inquietar todas as tuas respostas dilacerantes.
- SILÊNCIO -
B: - Ah! E estou, também, ouvindo-te respirar. Este não-silêncio do inspirar e expirar, diz-me em sussurro, que nunca haverá silêncios entre nós, nosso coração bate em uníssono e faz um belo compasso rítmico com o entrar e sair do ar no nosso corpo - e tudo isso independe de distância.
Bú? Uma bela ligação, que morreu na caixa postal e viveu na minha mente.