Até que me esgote a voz


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Deus Negro

Eu, 
cheio de preconceitos,
Racista!
Eu, 
com falsos conceitos,
Neo-nazista!
Eu, 
detestando pretos.
Eu, sem coração...
Eu, 
perdido num coreto
Gritando: "-Separação!"


Eu,
Você,
Nós...nós todos,
cheios de preconceitos,
fugindo como se eles carregassem lodo
Lodo na cor...E com petulância,
Arrogância,
Afastando a pele irmã.
...Mas
...Estou pensando agora:
E quando chegar a minha hora?
Meu Deus, se eu morresse amanhã,
De manhã?

Numa viagem esquisita,
Entre nuvens feias e bonitas,
Se eu chegasse lá?
E num porteiro manco,
Como os aleijados que eu gozei, 
Viesse abrir a porta,
E eu reparasse sua vista torta, 
Igual aquela que eu critiquei?
Se sua mão tateasse pelo trinco, 
Como as mãos dos cegos que eu não ajudei?
Se a porta rangesse,
Chorando os choros que provoquei?
Se uma criança me tomasse pela mão,
Criança como aquela que não embalei...?
E me levasse por um corredor florido,
Colorido,
Como as flores que eu jamais dei?
Se eu sentisse o chão frio,
Como dos presídios que eu não visitei?
Se eu visse as paredes caindo, 
Como das creches e asilos que não ajudei?
...E se a criança tirasse corpos do caminho, 
Corpos que eu não levantei
Dando desculpa que eram bêbados, mas eram epiléticos
Que era vagabundagem, mas era fome.
Deus Deus!
Agora me assusta pronunciar seu nome!



E se mais prá frente a criança cobrisse um corpo nu
Da prostituta que eu usei,
Ou do moribundo que não olhei,
Ou da velha que não respeitei,
Ou da mãe que não amei...?
Corpo de alguém exposto,
Jogado por minha causa,
Porque não estendi a mão,
Porque no amor fiz pausa
E dei, sei lá, só dei desgosto.

E, no fim do corredor, o início da decepção!
Que raiva, que desespero,
se visse o mecânico, o operário, 
Aquele vizinho, o maldito funcionário 
E até, até o padeiro,
Todos sorrindo não sei de quê...
Ah! sei sim, riem da minha decepção.
Deus não está vestido de ouro,
Mas como???
Está num simples trono.
Simples como não fui.
Humilde como não sou.
Deus decepção!
Deus na cor que eu não queria,
Deus cara-a-cara, face-a-face
Sem aquela imponente clase


Deus simples! Deus negro!
Deus Negro!
E eu racista, 
Egoísta,
E agora?
Na terra só persegui pretos,
Não aluguei casa, não apertei mão.
Meu Deus você é negro, que desilusão.
Será que vai me dar uma morada?
Será que vai apertar minha mão?
Que nada!
Meu Deus você é negro, que decepção!
Não dei emprego, virei o rosto
E agora? Será que vai me dar um canto,
Vai me cobrir com seu manto?
Ou vai me virar o rosto no embalo da bofetada que dei???

Deus, eu não podia adivinhar,
Por que você se fez assim?
Por que se fez preto,
Preto como engraxate, 
- Aquele que expulsei da frente de casa.
Deus, pegaram você na cruz
E você me pregou uma peça,
Eu me esforcei a bessa
Em tantas coisas, e cheguei até a pensar em amor
Mas nunca, nunca pensei em adivinhar sua cor!
Neimar de Barros

Bú? Porque talvez Ele apareça mancando para os que tiveram ojeriza de aleijados, talvez apareça raquítico para os que riram dos físicos fracos, talvez apareça negro para os racistas.