Até que me esgote a voz


domingo, 28 de outubro de 2012

Super Heroi

Eu sei quem tu és.
Sei o monstro que encerras dentro de ti e que tens medo de mostrar, por isso finges que ele não existe. O problema é que o monstro se alimenta de sombras, cresce na escuridão. Vai crescer até não o conseguires conter mais e, nessa altura, vai fazer sentir a sua presença com uma intensidade igual à energia que tu dedicaste a escondê-lo e a sufocá-lo no mais íntimo de ti. Eu sei precisamente quem tu és. Sei o que te move. Sei de onde vens. Sei aonde pretendes chegar. Talvez não saibas mas dentro de mim tenho um monstro tal e qual o que guardas dentro e ti. Mas o meu monstro é alimentado com luz e não trevas. O meu desgraçado monstro está enfraquecido, controlado, debilitado; o destruo quando o coloco em combate, tu o fortaleces quando o esconde da luta.Eu sei quem és. Não escolhi saber. Até tentei não querer saber. Mas há coisas que vão além da nossa compreensão e da nossa vontade. Não tenho medo do teu monstro. Deixa-me ajudar-te.
Bú? Homem livre, tu sempre gostarás do mar [Charles Baudelaire (1821-1867)]  Não quero te domar, não quero que abandones o mar; quero que viajes de olhos abertos, pois todos podem te a vistar a beira da praia. 


"De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés"

Dernier Frisson.


Suicide Girl and The Ghost

Ela é uma eterna suicida e ele é um fantasma.
Ambos estão presentes, um ao outro, um na constância e outro na ausência.
O que os mantém juntos? A vida e, consequentemente, a morte. Enquanto um procura um modo de viver, o outro procura um modo de morrer, definitivamente... Só que a vida é a soma e multiplicação, a divisão e a diferença, é a uma pequena porcentagem de momentos, e a morte é o resultado.
Ele tem fé, ela tem medo; acreditam que haverá um resultado nessa vida, mas se questionam o que denunciará que o resultado está prestes a chegar...
Como começará o dia, ao nascer uma vida? O que de fato anunciará o Universo, quando vier o resultado, quando vier a morte?
Qual será a última sensação?
21gramas é o peso que você perde ao morrer, 21gramas é o peso de uma vida.
Quanto pesará um corpo perto da sua morte?
Quantos gramas ganhará um corpo, quando estiver mais próximo da vida?

Bú? 0 gramas.

sábado, 13 de outubro de 2012

Ilusão de ótica


As pessoas passavam e olhavam aquela pintura abstrata, a qual nada de fato acontecia, só o ir e vir de olhares curiosos que chegavam e rapidamente partiam.
Ele resolveu ficar e fitá-la; ele olhava atentamente aquela pintura. Notou suas cores intensas e contrastantes, que pareciam lutar umas com as outras. As pinceladas eram tão firmes e, ao mesmo tempo, aparentemente aleatórias, que pareciam ferir a tela. Ele tecia todo o tipo de comentário a respeito da obra para si mesmo, enquanto os outros só passavam desatentos, perguntando uns aos outros onde ficavam os quadros realistas.
Eu, do meu lugar fixo, observava ele se aproximar silenciosamente; a passos cuidados como se ateasse o chão, ele chegou a minha frente. Via seus passos curtos, seu andar vagaroso e esperava ansiosamente que chegasse.
Já diante de mim, a algum tempo me fitando como poucos tiveram a audácia de fazer, achei que com a mesma calma você partiria. Mas com uma destreza inesperada você se fixou.
Um quadro abstrato sendo docemente fitado por observador peculiar; apetecia-me a sua calma passiva e o seu estar leve e direto.
Em alguns momentos ele olhava rapidamente ao redor, eu fingia não notar mas via seu interesse pelas outras pinturas, notava uma certa inveja que havia dele em relação aos outros transeuntes.
Ele se interessou por esse quadro abstrato, via em mim mais do que os outros costumam chamar de 'natureza morta'; mas seu interesse se fortalecia na sua insegurança.
Ele é inseguro, tem medo de tudo quase; teme a luz que incide sobre nós quadros, poderia mostrar ao mundo toda a beleza que há sobre nós e ele nos perderia; teme a falta de luz, poderia esconder temporariamente o que certamente notaria.
Ele ainda está aqui, noto sua insegurança no seu piscar de olhos - rápido e medroso, ele teme que eu parta nesse milésimo de segundo.
Adoro o seu medo, faz com que eu me sinta mais forte, segura, faz-me acreditar que ele estará sempre aqui, pois lhe ofereço segurança gratuita.
Investigo sua insegurança, pois ela torna minhas cores menos vivas; não quero que se faça presente só por não se achar capaz de analisar quadro melhor. Não quero que fique por acreditar que um quadro tão abstrato quanto a paixão já não desperta interesse alheio.
Enquanto ele me fita silenciosamente, enquanto ele teteia com seu olhar sutil, gosto de fingir que ele me diz:

"De real, basta o mundo. Eu quero é partir em busca do que é incógnito, improvável e incorreto. Eu vejo sentido no abstrato e, sim, muita vida no que muitos convencionaram chamar de 'natureza morta'. O que é mais abstrato do que a paixão? Ele não tem forma nem cor, mas é o que me faz parar o coração. A gente busca incessantemente essa sensação de enfartar de paixão, de sentí-la pulsando e estourando nossas veias. Que outra coisa nos leva a isso? O que mais justifica todos os poemas, todas as músicas, toda a angústia e inspiração do mundo? Só ela, a paixão. A pintura abstrata que eu aprecio como ninguém mais."

Bú? Delicadeza, a mais contundente resistência.

terça-feira, 26 de junho de 2012

E eu digo o necessário, somente o necessário - Já diria Aristóteles


[...]
aceito
até os silêncios
que me forem dados
expressar
com a transparência das deixas
nem tanto o que
represento
mas sim o que representa
a minha presença
nesse
palco
(Luci Collin)

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O retrovisor deveria retratar o que deixamos para trás.

Você fecha a porta e liga o motor, eu abro a janela levanto minha mão e dou adeus...Eu quase consigo ouvir você pensar, como esses dias puderam passar tão rápido. Você chegou a tempo de me ver te esperar.
Ao entrar em casa, então, tire os sapatos você veio de um lugar distante, andou todos esses longínquos quilômetros e agora está no lugar certo. Eu não quero nenhuma marca do ontem, nessa redoma que pode enfim celebrar o agora.
Essa é nossa festa, eu estou enfim sorrindo e posso cantar o seu nome, é uma canção de ninar que fiz enquanto esperava você chegar. Então durma.
E os pesadelos e os monstros, e seus maiores medos, a minha mais triste lembrança de você (te ver partir) vão desaparecer ao longo do tempo; você não será encontrado aqui, na nossa redoma.
Durma, ninguém há de te acordar, e amanhã você ainda estará aqui, NÃO IMPORTA ONDE OS TEUS SONHOS TE LEVEM.
Agora você percebe? Todas as quedas e vôos, todas as noites sem dormir, todos os sorrisos e suspiros, tudo trouxe você até aqui, tudo trouxe você para casa.
Abaixe essa mala, essa arma, a luta acabou você não precisa mais disso.
Este teto é um cobertor, que te mantém aquecido dentro do silêncio, depois da tempestade.
Você entende? Esta chuva sem fim; esta luta, sem sentido; esta despedida, tão fugaz. Agora tudo faz sentido, isso lhe trouxe até aqui, isso só te trouxe até aqui.Tudo isso lhe pôs, outra vez, dentro de casa.

Bú? Julho.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Fim do 1º semestre

Sobre a ansiedade do fim de verão:
Nesses tempos tenho visto as nuvens da chuva sobre a cidade, eu enxergo com clareza o cinza afugentando as cores. E a saudade das diferentes nuances de cores atacando os cidadãos, os fizeram fugir munidos de guardas-chuvas.
O instinto que me instigava a me limpar da multicor demasiada saturada de matiz intensa, foi o mesmo que me segurou para analisar a transição dos tons, do brilho, ele dizia:
Segure-se, não vai demorar muito.
As cores vão retornar aos seus donos, e os cidadãos hão de emergir de suas capas.

Vejo o medo assumir; e os corações endurecidos com a proximidade do temer, batem com dor e por isso odeiam amar.
E então o desejo infantil de afagar um gatinho, ou ter um jantar romântico me impulsionavam a ter um amante; mas, ao mesmo tempo esse desejo infantil de fugir e me esconder entre as minhas muralhas feitas de coberta e travesseiro, fizeram-me observar, aqueles desejos antagônicos dialogavam com a minha consciência dizendo:
Segure-se, não vai demorar muito.
Todos irão ver, o amor e os amantes surgirem do silêncio e, das capas de chuvas há de emergir casais.

Bú?! Podemos mudar de roupa, de época do ano, de estação, de companhia, só não podemos sair desta pele que delineia a nossa alma a realidade física que vivemos, nossa casa é onde o nosso coração está.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Se você tentar não amar quem ama, você vai aprender a odiar você mesmo

Antes que a dor me destrua os sentidos e que ausência me faça perder a vontade de andar para frente, eu me derramo aqui, em uma folha limpa.
Bú? Eu perdi as palavras. Na verdade, estou repleto delas. Não tenho é coragem pra falar.