Até que me esgote a voz


domingo, 4 de novembro de 2012


" Imagine que você está a beira-mar e que você vê dois navios partindo.
Você fica olhando, enquanto eles vão se afastando, cada vez mais longe, até que finalmente aparecem apenas dois pontos no horizonte, lá onde o mar e o céu se encontram.
 E você diz: "Eles se foram".

Foram aonde? Foram a um lugar que sua vista não alcança, só isto.
Eles continuam tão grandes, tão bonitos e tão importantes como eram quando estavam perto de você. 
A dimensão diminuída está em você, não neles.
E naquele exato momento em que você está dizendo "Eles se foram",
 há outros olhos vendo-os aproximarem-se e outras vozes exclamando com júbilo: "Eles estão chegando!" "
-> Sobre o fim dos lírios.

Rasgue seus cadernos

Durmo pouco, as noites costumam ser enormes; olho para cima, atravessando meu teto vejo o céu. Em uma noite luminosa, as estrelas escrevem; sem entender, normalmente, apenas compreendo. Também sou essa escritura, sou esse poema, que nesse exato momento alguém - me - soletra.
Um texto composto por urgências: alegrias complementares, tristezas absolutas. Cheia de ausências - delineado por espaços e reticências, sou composta por excessos. Eu não caibo no estreito, vivo, só, entre extremos - no maniqueísmo da ortografia transformada e transformadora; caminho, desequilibrada, em cima de uma linha tênue entre o sagrado e o profano. 
O que tenho de mais obscuro, é o que me ilumina. É a minha lucidez que é perigosa. Diria que sou irremediável, dentro do fato da escrita irreversível, encontro-me hermeticamente fechada.


Bú? 
No meio do nó(s)

Dialética - desnudada veste social

Abro a porta, escancaro os cadernos e destampo a caneta, torno mais agradevel a posição dos livros que leio para que as palavras venham nocivas, indecisas, despudoradas, vestidas de dores, de mágoas, de raivas. Que cheguem até mim como quiserem, que se ofereçam delicadas ou urgentes, despidas de tudo, eloquentes, mas que sejam translucidas. Sem falso moralismo, recalques, alegrias artificiais, entusiasmos opacos.
Através dessas linhas tortas e torpes surjam palavras: inocentes, indecentes, inexistentes. Componham frases, poemas, cartas, músicas. Apareçam livres, eufóricas e aladas, sem apego ao eu-lirico, ao sentimento. Venham vivas, mesmo que para falar, acidamente, dos mortos que ainda não foram enterrados. 
Que se apropriem da temática e narrem uma história de amor entre aquela que não morreu, e aquele que não renasceu; que os apófricas possam ler, que os acadêmicos consigam sentir.

Bú? "A palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras. Elas são nossa única realidade ou, pelo menos, o único testemunho de nossa realidade". Octávio Paz

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Condensação dos ventos


Onde a poesia parece dissolver e se refaz em seguida: é lá que a gente se encontra. Não junto. Você se encontra com você e eu comigo mesma. Suba as escadas e abra a porta, observe as coisas que você nunca viu antes; quero que reconheça essa casa mesmo no escuro.
É na tentativa primata de seguir sendo que podemos nos olhar, reconhecer e, quem sabe, furar o cerco dos olhares que não nos olham. Talvez façamos algo que fira a visão indolente dos que nos ignoram tão facilmente. Eles foram se encantando e se envolvendo; depois, é claro, de alguns truques. E então, o caminho enveredou por rumos desconhecidos, mas você já havia domado seus olhos para os caminhos abstratos. Atravessou a avenida, carregando o vento sobre seus ombros, e a encheu de memórias. Você está chegando no começo, esse é o começo de algo que está prestes a acabar.
Primeiro segredos, histórias e músicas, mas a verdade teve que ficar para outro momento, um momento de menos honestidade. 
Foi essa hora que eu segurei e suspendi no alto de nossas cabeças, como luz de idéia ou lamparina discreta, a clareira que se fez na impossibilidade fértil. E você, viril, fecundou de vontades meu ensejo estéril, obcecado. Nasceu um rebento que não pude conformar.
Desculpe. 
A quem possa ferir esse afeto tanto, meu lamento. É que meu querer não conhece amenidades. Precisava de você. Não menos. 
É que havia demasiada solidão e saudade no espaço do vento entre nós naquele abraço. Tinha cheiro de amor-recém-chegado o seu perfume no final do dia, tinha uma eu impressa na sua pupila, e um você impresso no meu olho inteiro. 
O barulho da vida, do lado de fora da minha janela, pouco me importava; o que me domava as rédeas do impulso eram os ruídos vindos de dentro:  ranço, apego e desejo, merecidos, imerecidos apelos.

Bú? Ela matava a si aos poucos, diariamente, essa era sua função. Perto de matar a outra, numa luta perdida, para ambas, desfaleceu com a terceira respiração. - O caráter muda tudo.
Suas verdades, minhas mentiras. 

Oliveira

Era uma vez uma Isolda, que escrevia diariamente para  o seu Tristão.
Ela escrevia, escrevia todos os dias. A cada dia uma nova carta para seu amado.
Sentia-se culpada por não estar com ele, ele não sabia o quanto ela gostava dele e ela temia que ele não fosse descobrir.
Ela escrevia cartas todos os dias, uma por dia, nelas deixava um pouco mais claro o seu enorme carinho; orando para que ele as pudesse ver e retribuir com ao menos um enorme abraço e um belo olhar.
Ele, guerreiro que era, lutou com natureza, guerreou com sua rival - medieval -  doença. Venceu.
Como um príncipe, pequenino, ele retribuiu as cartas da sua querida Isolda. Sorriu, riu, beijou e abraçou.
Abriu os olhos e fitou-a profundamente. Seu olhar grato, que olha com a alma de príncipe, tomava-a nos braços como um grande amigo e um doce amor; ela raposa, cativada que estava, dispunha de qualquer gratidão entre lágrimas.

Bú? O verdadeiro homem mede a sua força, quando se defronta com o obstáculo. (Antoine de Saint-Exupéry)
O grande guerreiro, tem se mostrado cada vez mais forte e digno dessa força, que usa para sorrir e nos fazer sorrir, para vencer! - "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas." ♥

VINTEUM

"Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar"





Bú? Ghost. 21111983-16/02 (2121)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Oirátigras - Zopellerdnaa

Não, não fomos companheiros ocasionais de viagem. Sabes bem que somos bem mais do que isso. Mesmo quando o teu coração se enche de dúvidas, mesmo quando os ciúmes te perfuram a Alma, mesmo quando me procuras e não encontras. Mesmo quando o céu se cobre de nuvens e não vês o Sol, sabes que ele lá está. Queria ser capaz de preencher todo e qualquer vazio que te causasse medo. Queria ser capaz de te orientar, dar sentido à tua vida e um destino à nossa viagem. Queria ser capaz de ocupar cada pedacinho de ti, estar em ti a toda a hora e a todo o momento. Mas a vida é feita de procuras, buscas, caminhadas. E os vazios, os medos e as dúvidas fazem parte essencial e determinante da vida. Por isso sei perfeitamente que, por maior que fosse esta minha vontade, precisarias sempre desse vazio para me encontrar, para me procurares.

Bú? Carta a um Romeu inseguro, ass.: a NÃO Julieta.