Abro a porta, escancaro os cadernos e destampo a caneta, torno mais agradevel a posição dos livros que leio para que as palavras venham nocivas, indecisas, despudoradas, vestidas de dores, de mágoas, de raivas. Que cheguem até mim como quiserem, que se ofereçam delicadas ou urgentes, despidas de tudo, eloquentes, mas que sejam translucidas. Sem falso moralismo, recalques, alegrias artificiais, entusiasmos opacos.
Através dessas linhas tortas e torpes surjam palavras: inocentes, indecentes, inexistentes. Componham frases, poemas, cartas, músicas. Apareçam livres, eufóricas e aladas, sem apego ao eu-lirico, ao sentimento. Venham vivas, mesmo que para falar, acidamente, dos mortos que ainda não foram enterrados.
Que se apropriem da temática e narrem uma história de amor entre aquela que não morreu, e aquele que não renasceu; que os apófricas possam ler, que os acadêmicos consigam sentir.
Bú? "A palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras. Elas são nossa única realidade ou, pelo menos, o único testemunho de nossa realidade". Octávio Paz