Até que me esgote a voz


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Miserável necessidade

Enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos  e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século - a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância - não forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre terra houver ignorância e miséria, livros não serão inúteis.

Bú? Prefácil - VICTOR HUGO.

sábado, 10 de novembro de 2012

13/11/12 (NY)


Passamos metade da vida à espera daqueles que amamos, e outra a deixá-los.
O futuro pertence ainda mais aos espíritos do que aos corações.  
Amar, afinal, é a única coisa que pode ocupar a eternidade, pois ao infinito é necessário o eterno inesgotável.O amor em vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace.




Sabe o que vem a ser a amizade? - Indagou.

- Sim - respondeu - é ser como irmão e irmã; duas almas que se tocam sem se confundir, dois dedos da mão.




- E o amor? - Prosseguiu.

- Oh, o amor! - disse ela - É ser dois e não ser mais que um. Um homem e uma mulher que se fundem num anjo. É o céu.




Bú? Faltam-me palavras para escrever, falta-me leveza com as letras e sabedoria com os pontos. Meu eu ainda não é lirico o suficiente para te fazer ascender com as minhas orações.
Que Victor Hugo consiga expor aquilo que meu coração sempre irá sentir. 
Que os anjos consigam ao seu lado sorrir, e comemorem ai no céu; pois na Terra ainda choramos, incansavelmente.

A desordem é tenaz.


Fingindo ter forças, querendo fazer crer que teria coragem, ele diz:
- Posso lutar contra você.

Ela, friamente, responde:
- Você irá perder.

Ele, com tristeza, questiona-se:
- Onde está a sua compaixão?

E com uma dura resposta nos lábios, ela responde:
- Em nenhum lugar que você consiga alcançar. Eu não tenho compaixão por você, eu sei que você é invulnerável  a qualquer arrependimento.

Bú? A VERDADE TEM MUITAS CARAS

A verdade tem muitas caras

Sacrificando-se, a jovem diz:
- Queria ser como a senhora. Responsabilizando-me por mais um erro, pois sei que para esse haverá penitencias que me livrem do pecado, ouso dizer que invejo a senhora. Quem me dera ser como és.

Sem entender, a senhora indaga:
- Por quê?

Apesar de toda a dor, a jovem permite que a resposta saia:
- Porque já não consigo dormir.

A senhora, que agora compreende melhor, assume:
- Talvez, ambas, não tenhamos tido boas noites; talvez, não estejamos dormindo muito bem. Na busca pelo pecado nos distanciamos de Deus, e é claro que isso tem preço, o valor está além da descoberta do pecado.

Silenciosamente, a jovem diz entre lábios apertados:
- ...Compreendo...

Descendo do seu pedestal de ar, entre lágrimas soluçantes a senhora confessa, como se um padre feito de vento e garoa pudesse absolvê-la da culpa:
- Tenho dúvida. Tenho dúvidas tão grandes, que se alimentam do meu sono com pontos de interrogações intermináveis para além da madrugada.

Bú? Tantos laços, tantas amarras; os controles, pretensões.
n
ada adianta se o vento não soprar.

Enquanto os olhos fecham...


Tenho vivido dentro da minha bolha de sabão, através da qual vejo o mundo e ele me vê.


Não olha agora, estou olhando para você.


Lembrei, pensei, medi, senti e paralelamente a tudo isso o Mundo continuou a girar. Olhando daqui, agora, as coisas parecem um pouco fora de lugar; mas talvez eu é que esteja me posicionando do lado contrário à luz. O Mundo mantinha seus movimentos de rotação e translação, enquanto eu fingia que um vagalume era a Lua me esperando além de qualquer limite físico que me impeça de enxergar.

No nosso livro a nossa história é faz de conta ou é faz acontecer?


Nas últimas noites eu despertei ao luar. Eu acordei, ao invés do despertador, algo me despertou. E eu me dei de presente madrugadas afora.


Dê-me a Lua que eu te faço adormecer.

Fiz “muito”, fiz “nada”, passei horas olhando para além do teto acima da minha cama, como se cimento e tijolo fossem translúcidos ao luar, enxerguei  para além do céu. Porque tem horas que parede nenhuma pode me conter.


Larguei-me, dormi, nas margens de mim.

Bú? Eu quis prestar atenção
Tudo o que é menor, mais lento e baldio
Deixo o rio passar tão voraz, veloz
Me deixo ficarQuando o sol acena bate em mim
Diz valer a pena ser assim
Que no fundo é simples ser feliz
Difícil é ser tão simples





Anoitecerá


Houve uma madrugada em que ele não prestou atenção, entre uma risada e outra, suas mãos depararam com as dela, seu corpo encostou quente em alguma parte do dela. E, então, o tempo foi longo. Do primeiro beijo à dança de rosto colado que mais parecia o corpo fazendo declaração de amor. Com ações escreveu no espaço uma canção para a menininha, uma derradeira confissão, feita na tradução das palavras que não cabem na boca. 
Houve essa noite em que seu corpo disse e o dela respondeu. Não havia receio, nome, raciocínio ou amanhã.  Ele acordou obstinado a montar vigília, com olhos de coruja, sem perder um só de seus movimentos. Aquela tinha sido apenas a sua noite de folga, uma noite de longa fuga a dois.

Bú? Vou arma minha rede na nuvem, na noite será?!

Cê parô - Separo.


A vontade dele era de fazer um pequeno abrigo, e morar nela; ela, a quem ele não dava nome, que só existia entre quatro paredes, num querer proibido.
Ele queria morar nela, mesmo sabendo que naquele corpo não cabia; ela era tão pequena, magrela, um menino-moleque e naquele corpo de pseudo-menino ele queria uma mãe. Para então naquele corpo de mãe, poder ser homem, pai.

Ele não se reconhecia nela, mas só se achava, compreendia-se e se completava ali, nela. Ali ele fazia suas confissões, a respeito do que lhe metia medo, das mentiras que a vida lhe fez, dos desejos que nem teve. E diante dela ele já nem sabia o que era verdade.
Ele queria entrar ali dentro e nascer outra vez: puro, diferente, autêntico. Desejava adormecer nela, mesmo que no dia seguinte saísse ao encontro de sua vida cotidiana. Os amigos de longa data, que ele só sabia amigos por assim ter aprendido, não sentia aquele bem-estar neles. Há muito ele vinha separado do seu bem-estar; ele, que vivia para fora, robô de si mesmo, sem se perguntar se era mesmo por ali.
Ele sempre voltava para ela.
A cada noite ela lhe contava uma história, e era sempre a história dele que contava. Como se lhe voltasse um espelho e, ali, ele se visse nu. Ele gostava de ouvir sua própria história, mesmo saindo dali assustado e com medo. Havia muitos e muitos anos que ele evitava o espelho, mas o dia chegava ao fim e ele voltava para ouvir mais uma história, rara se ver mais um pouco. Havia naquelas histórias alguma coisa que o atraía, algo que o intrigava, de que ele vinha fugindo, que ele vinha desprezando, até que no caminho de fuga deparou com.
Ele fugia de sua própria vida e, no caminho que tomou para evitá-la, a encontrou; a garota sem nome que
 lhe contou, ela, que era invisível, que ninguém mais conhecia. 
A vida em volta continuava a mesma, embora ele sempre voltasse. Eram amigos, disso, ele tinha certeza. Ele queria morar nela, mas tinha medo de ali ficar; ela queria, sim, a sua presença, ali, ele seria sempre bem-vindo. Mas o desejo dela não era o de engolir. Ela era pequena, a menor de todas, tão menor que ele. Mas ali ele permanecia noites inteiras, confortável, naquele canto exato e quente.
Ela não o queria para si, embora o quisesse. Desejava em seus sonhos que ele a quisesse tomar para si, queria que ele sempre fosse bem-vindo, como queria ser bem-vinda sempre; almejava, de vez em quando também se hospedar nele, mesmo que por um tempo limitado, com a certeza de que a casa nunca seria sua.
Ela queria aquele amor macio e estranho, sem garantias de ser para sempre, ela queria aquele amor fresco de hoje; queria amar com liberdade, embora soubesse do seu próprio o desejo de pertencer. Ela queria poder ser dele, mesmo não sendo. 
Queria um pedido de casamento para lhe dizer o mais amoroso não. Para então tomá-lo pela mão e desenharem juntos os caminhos a dois, sempre de mãos dadas, com a suavidade de não fazer tudo sempre igual. Ela queria a solidão dele, queria dividir com ele o seu sem rumo. Ela o queria quase toda noite, ser esmagada na parede, dividir um coração apertado e quente. 
Queria cuidar dele enquanto ele estivesse hospedado nela. Queria hospedar-se nele também e, ali, naquele espaço de tempo, receber seus cuidados.
Ela queria amar para sempre e para sempre ser amada, mas não buscava a promessa – não era ali que morava o para sempre. Ela também queria a falta dele, de que também era feito o amor por ele, o amor dele por ela. Ela o queria inteiro para si mesmo e tanto maior ao seu lado. Ela queria, não a promessa mas, a vontade. Ele queria, não a obrigação mas, a sorte. Eles queriam estar sempre começando de novo. Ela, que tinha uma história comprida, que vinha gastando no caminho. Ele, que há anos vinha arrastando o peso da sua. Muitas vezes ele pensava em desistir dela. E dela fugia. Mas era de si mesmo que ele fugia. Ele saía. Mas sempre voltava para casa.

Bú? 
Procurava o amor em jardins de cactus