sábado, 10 de novembro de 2012
Cê parô - Separo.
A vontade dele era de fazer um pequeno abrigo, e morar nela; ela, a quem ele não dava nome, que só existia entre quatro paredes, num querer proibido.
Ele queria morar nela, mesmo sabendo que naquele corpo não cabia; ela era tão pequena, magrela, um menino-moleque e naquele corpo de pseudo-menino ele queria uma mãe. Para então naquele corpo de mãe, poder ser homem, pai.
Ele não se reconhecia nela, mas só se achava, compreendia-se e se completava ali, nela. Ali ele fazia suas confissões, a respeito do que lhe metia medo, das mentiras que a vida lhe fez, dos desejos que nem teve. E diante dela ele já nem sabia o que era verdade.
Ele queria entrar ali dentro e nascer outra vez: puro, diferente, autêntico. Desejava adormecer nela, mesmo que no dia seguinte saísse ao encontro de sua vida cotidiana. Os amigos de longa data, que ele só sabia amigos por assim ter aprendido, não sentia aquele bem-estar neles. Há muito ele vinha separado do seu bem-estar; ele, que vivia para fora, robô de si mesmo, sem se perguntar se era mesmo por ali.
Ele sempre voltava para ela.
A cada noite ela lhe contava uma história, e era sempre a história dele que contava. Como se lhe voltasse um espelho e, ali, ele se visse nu. Ele gostava de ouvir sua própria história, mesmo saindo dali assustado e com medo. Havia muitos e muitos anos que ele evitava o espelho, mas o dia chegava ao fim e ele voltava para ouvir mais uma história, rara se ver mais um pouco. Havia naquelas histórias alguma coisa que o atraía, algo que o intrigava, de que ele vinha fugindo, que ele vinha desprezando, até que no caminho de fuga deparou com.
Ele fugia de sua própria vida e, no caminho que tomou para evitá-la, a encontrou; a garota sem nome que lhe contou, ela, que era invisível, que ninguém mais conhecia.
A vida em volta continuava a mesma, embora ele sempre voltasse. Eram amigos, disso, ele tinha certeza. Ele queria morar nela, mas tinha medo de ali ficar; ela queria, sim, a sua presença, ali, ele seria sempre bem-vindo. Mas o desejo dela não era o de engolir. Ela era pequena, a menor de todas, tão menor que ele. Mas ali ele permanecia noites inteiras, confortável, naquele canto exato e quente.
Ela não o queria para si, embora o quisesse. Desejava em seus sonhos que ele a quisesse tomar para si, queria que ele sempre fosse bem-vindo, como queria ser bem-vinda sempre; almejava, de vez em quando também se hospedar nele, mesmo que por um tempo limitado, com a certeza de que a casa nunca seria sua.
Ela queria aquele amor macio e estranho, sem garantias de ser para sempre, ela queria aquele amor fresco de hoje; queria amar com liberdade, embora soubesse do seu próprio o desejo de pertencer. Ela queria poder ser dele, mesmo não sendo.
Queria um pedido de casamento para lhe dizer o mais amoroso não. Para então tomá-lo pela mão e desenharem juntos os caminhos a dois, sempre de mãos dadas, com a suavidade de não fazer tudo sempre igual. Ela queria a solidão dele, queria dividir com ele o seu sem rumo. Ela o queria quase toda noite, ser esmagada na parede, dividir um coração apertado e quente.
Queria cuidar dele enquanto ele estivesse hospedado nela. Queria hospedar-se nele também e, ali, naquele espaço de tempo, receber seus cuidados.
Ela queria amar para sempre e para sempre ser amada, mas não buscava a promessa – não era ali que morava o para sempre. Ela também queria a falta dele, de que também era feito o amor por ele, o amor dele por ela. Ela o queria inteiro para si mesmo e tanto maior ao seu lado. Ela queria, não a promessa mas, a vontade. Ele queria, não a obrigação mas, a sorte. Eles queriam estar sempre começando de novo. Ela, que tinha uma história comprida, que vinha gastando no caminho. Ele, que há anos vinha arrastando o peso da sua. Muitas vezes ele pensava em desistir dela. E dela fugia. Mas era de si mesmo que ele fugia. Ele saía. Mas sempre voltava para casa.
Bú? Procurava o amor em jardins de cactus