Até que me esgote a voz


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A fotografia


 E o sorriso de Monalisa se mantém...

Não atoa, diante de milhares de câmeras;
 com pessoas diversas
 - de vários lugares do mundo -
observando aquela que nunca deixa de sorrir, aquela que nunca esmorece o olhar.


Bú? Metolhar.

pé no peito, mão na face.

Ela é feita de água,
inconstante,
Uma maré cheia,
que às vezes torna-se maré baixa.

Ela é feita de ar,
Inspiração e expiração.
Um sopro na vela,
a ventania que derrubou uma árvore.

Ela é feita de fogo,
sobrevivente de um incêndio no peito,
morta em uma fogueira de São João,
fênix na vela dos templos.

Ela é feita de terra,
pisoteada,
criadora da flor,
mantenedora do espinho.

Ela é feita de nada,
de natureza vazia,
constantemente buscando preencher-se,
encontrou, enfim, no zero a plenitude.

Bú?
um mar feito de lágrimas
um vento feito de pulmão
uma faísca feita de olhar
uma pedra feita no caminhar.


terça-feira, 18 de março de 2014

Homenagem a minha vó.

Exite alguma coisa profunda e eterna em todos os seres humanos. Alguns se deparam com ela ao longo da sua existência. E então, insistem, persistem naquilo que os transformarão em um brilho eterno, de um corpo que logo terá a eterna cintilância do não se lembrar, do não mais ver, do não mais agir/falar, do não mais viver.
Minha vó, em sua etérea luta por fazer seu brilho resplandecer na Terra, tornou-se professora e transformou a vida de jovens e adultos da pequena cidade que habitava.
Hoje no céu, minha vó brilha incessavelmente na Terra. Ontem na Terra, ela sempre manteve-se como uma centelha celeste.
Agradeço, verdadeiramente, ao prefeito da cidade por reconhecer esse fato e dar o nome da nova escola a minha vó. E agradeço, sempre em orações, por ter tido a avó que tive; uma cidadã, acima de qualquer dúvida, que fez da sua vida um grande ato de existência social através da educação. Fazendo por merecer não só essa grandiosa e significativa homenagem, mas, também, as significativas homenagens cotidianas, que se dão pelas ótimas lembranças que todos da família e da cidade temos - e que por vezes se transbordam do coração e da memória, transformando-se em lágrimas misturadas com sorrisos.

terça-feira, 28 de maio de 2013

uma vela acesa...

E tanto tempo terá passado, depois, tudo se tornará cotidiano
e a minha ausência não terá nenhuma importância.
Serei apenas memória, alivio (...)

Bú? Quando, daqui a pouco tempo, a música que me dedicastes no rádio não tiver mais importância e o carinho que te dediquei na festa não tiver mais palpável.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Heliotrópios ao futuro luar


 

Por mais que eu ande
Nada em mim imagina
O que é que tal menina tão pequena
Está fazendo em uma cidade tão grande. 
Leminski
Era, enfim, dia de sorrir. Os lábios foram, portanto, se abrindo horizontalmente, assim, lentamente, numa timidez tenaz. Imagina! Aquilo era para ela propriamente uma nudez. A alvura dos dentes contrastava com o negrume da pele e da vida, era de doer os olhos, mas - naquele instante - ela não se importava.

Todas as manhãs despertava acreditando que aquele dia em especial lhe poderia ser uma espécie de prelúdio, como um desses cartazes que anunciam grandes espetáculos que futuramente serão exibidos. Experimentava, então, uma felicidade clandestina. Por isso, era, então, fragmentada; vinha aos poucos e ela aceitava cada dose sem nunca saber quando viria outra. 

Embriagava-se e saia cambaleante sem perguntar quanto custava.
Mal sabia que não haveria escapatória, que a vida lhe seria uma agiota cruel. E tirana que era, não faria nada sozinha, não daria um só passo sem sua capanga fiel: a realidade.

Diante da ferocidade cotidiana, a menina, cuidadosa, passou a guardar os sonhos embaixo do travesseiro, mesmo sabendo que eles poderiam nunca acordar, mesmo sabendo que poderiam sufocar. Tamanho era o medo de perder, que preferia não ter. Hoje em dia é fugitiva de si, fora acusada de facínora, condenada por ter assassinado os próprios sonhos. Há quem diga que ela os viu, passivamente, agonizando até a morte e nada fez.

Um vizinho, fofoqueiro, dizia que durante um tempo a ouvia gritar antes de dormir: “Já está na hora d'eu acordar para os meus sonhos, de fechar os olhos e viver o dia que eu criarei com a mente.” E então ele deduzia: Quando encaramos a noite como o dia da alma, muitas coisas mudam de significado. Depois de um tempo, a ouvia gritar, logo após acordar: “Está na hora de acordar, e por a alma para dormir.”
O vizinho, fofoqueiro, ponderava, nas questões alheias, suas possibilidades: a verdade é singular, é difícil manter os pés no chão enquanto a mente voa; a verdade é plural, às vezes, precisamos deparar com um beco sem saída para descobrirmos que o caminho é pro outro lado.
Bú? Preocupemo-nos com o que põe em perigo a nossa alma 

Sobre flores (não sob pedras)


E sem poder ver as horas, ela as tocou. Seus dedos acariciavam as pétalas do tempo, era efêmero aquele minuto preso na parede e o tempo que tateava era duradouro. Pensava assim, pois compreendia: o que é belo é tão útil como o que é simplesmente útil, afinal, não enxergava os dois, e via ambos de maneira diferente da maioria. Sua visão era outra. Cegueira branca é de quem vê e não encara o mundo com olhos nos olhos. Seu olhar branco mirava o nada, imenso vazio sem cor. E, no entanto, era como se enxergasse o mundo, janelas da alma abertas. 

Independente de qualquer prisma, respeitava muito o ver e a falta de visão tanto dos sábios quanto a dos ignorantes. Sem nunca desrespeitar esses ou aqueles, todas as tardes, durante a primavera, com um regador de latão cor violeta (que ela com sua  escuridão, doce, via verde ou cinza - não sabia explicar direito), regava as horas que ela podia tocar e que os vizinhos sentiam recender na estação 
Bú? O futuro luar estará incrível, uma maravilha! Ainda não posso dormir, e o perfume dos heliotrópios da Sra. Rosa. Será que esse belo pássaro, pintado com um azul vivo, consegue sentir?

Procrastinar

Tua voz, uma potência. Ouvir teu grito por mudança, teus sonhos por arritmia, é como te ver desperto em minha cama.
Vejo o que te moves, e tu és movido pela transformação; é como se pudesse abrir os olhos - a cada piscadela durante uma conversa política - e te encontrar  no meu quarto, tu estas lá, olhando-me com teus belos e enormes olhos cor do infinito.
Era bonito demais acordando. 

E é bonito demais esse homem que vejo despertar - ainda que diletante - a cada conversa. É uma beleza que não sai do azul. Essa beleza vem de dentro, dessas que os olhos não costumam perceber e com a qual as pessoas não costumam se importar.
Você falava alguma coisa, quando eu massageei teus pés - na minha imaginação. Na minha cabeça foi um contato breve; não podia naquele instante, firmar minha mente e meus olhos sobre teus calos, ásperos, que eu tanto gostei de acariciar. É comum que eu sinta medo de concretizar vontades. Senti receio de tocá-lo, portanto só imaginei.
Senti receio de perder no meu repertório de imagens teus olhos fitando-me; recordei. Mas minha memória, transfigurada, agora gosta de lembrar ao contrário: Eu te olhando enquanto você acorda.

Bú? 
 “o que foi, meu ammm…?!”. Tua cicatriz assassinou o adjetivo antes mesmo de seu fim, mas levou consigo qualquer sentido antes implícito.