Até que me esgote a voz


sábado, 10 de novembro de 2012

Enquanto os olhos fecham...


Tenho vivido dentro da minha bolha de sabão, através da qual vejo o mundo e ele me vê.


Não olha agora, estou olhando para você.


Lembrei, pensei, medi, senti e paralelamente a tudo isso o Mundo continuou a girar. Olhando daqui, agora, as coisas parecem um pouco fora de lugar; mas talvez eu é que esteja me posicionando do lado contrário à luz. O Mundo mantinha seus movimentos de rotação e translação, enquanto eu fingia que um vagalume era a Lua me esperando além de qualquer limite físico que me impeça de enxergar.

No nosso livro a nossa história é faz de conta ou é faz acontecer?


Nas últimas noites eu despertei ao luar. Eu acordei, ao invés do despertador, algo me despertou. E eu me dei de presente madrugadas afora.


Dê-me a Lua que eu te faço adormecer.

Fiz “muito”, fiz “nada”, passei horas olhando para além do teto acima da minha cama, como se cimento e tijolo fossem translúcidos ao luar, enxerguei  para além do céu. Porque tem horas que parede nenhuma pode me conter.


Larguei-me, dormi, nas margens de mim.

Bú? Eu quis prestar atenção
Tudo o que é menor, mais lento e baldio
Deixo o rio passar tão voraz, veloz
Me deixo ficarQuando o sol acena bate em mim
Diz valer a pena ser assim
Que no fundo é simples ser feliz
Difícil é ser tão simples





Anoitecerá


Houve uma madrugada em que ele não prestou atenção, entre uma risada e outra, suas mãos depararam com as dela, seu corpo encostou quente em alguma parte do dela. E, então, o tempo foi longo. Do primeiro beijo à dança de rosto colado que mais parecia o corpo fazendo declaração de amor. Com ações escreveu no espaço uma canção para a menininha, uma derradeira confissão, feita na tradução das palavras que não cabem na boca. 
Houve essa noite em que seu corpo disse e o dela respondeu. Não havia receio, nome, raciocínio ou amanhã.  Ele acordou obstinado a montar vigília, com olhos de coruja, sem perder um só de seus movimentos. Aquela tinha sido apenas a sua noite de folga, uma noite de longa fuga a dois.

Bú? Vou arma minha rede na nuvem, na noite será?!

Cê parô - Separo.


A vontade dele era de fazer um pequeno abrigo, e morar nela; ela, a quem ele não dava nome, que só existia entre quatro paredes, num querer proibido.
Ele queria morar nela, mesmo sabendo que naquele corpo não cabia; ela era tão pequena, magrela, um menino-moleque e naquele corpo de pseudo-menino ele queria uma mãe. Para então naquele corpo de mãe, poder ser homem, pai.

Ele não se reconhecia nela, mas só se achava, compreendia-se e se completava ali, nela. Ali ele fazia suas confissões, a respeito do que lhe metia medo, das mentiras que a vida lhe fez, dos desejos que nem teve. E diante dela ele já nem sabia o que era verdade.
Ele queria entrar ali dentro e nascer outra vez: puro, diferente, autêntico. Desejava adormecer nela, mesmo que no dia seguinte saísse ao encontro de sua vida cotidiana. Os amigos de longa data, que ele só sabia amigos por assim ter aprendido, não sentia aquele bem-estar neles. Há muito ele vinha separado do seu bem-estar; ele, que vivia para fora, robô de si mesmo, sem se perguntar se era mesmo por ali.
Ele sempre voltava para ela.
A cada noite ela lhe contava uma história, e era sempre a história dele que contava. Como se lhe voltasse um espelho e, ali, ele se visse nu. Ele gostava de ouvir sua própria história, mesmo saindo dali assustado e com medo. Havia muitos e muitos anos que ele evitava o espelho, mas o dia chegava ao fim e ele voltava para ouvir mais uma história, rara se ver mais um pouco. Havia naquelas histórias alguma coisa que o atraía, algo que o intrigava, de que ele vinha fugindo, que ele vinha desprezando, até que no caminho de fuga deparou com.
Ele fugia de sua própria vida e, no caminho que tomou para evitá-la, a encontrou; a garota sem nome que
 lhe contou, ela, que era invisível, que ninguém mais conhecia. 
A vida em volta continuava a mesma, embora ele sempre voltasse. Eram amigos, disso, ele tinha certeza. Ele queria morar nela, mas tinha medo de ali ficar; ela queria, sim, a sua presença, ali, ele seria sempre bem-vindo. Mas o desejo dela não era o de engolir. Ela era pequena, a menor de todas, tão menor que ele. Mas ali ele permanecia noites inteiras, confortável, naquele canto exato e quente.
Ela não o queria para si, embora o quisesse. Desejava em seus sonhos que ele a quisesse tomar para si, queria que ele sempre fosse bem-vindo, como queria ser bem-vinda sempre; almejava, de vez em quando também se hospedar nele, mesmo que por um tempo limitado, com a certeza de que a casa nunca seria sua.
Ela queria aquele amor macio e estranho, sem garantias de ser para sempre, ela queria aquele amor fresco de hoje; queria amar com liberdade, embora soubesse do seu próprio o desejo de pertencer. Ela queria poder ser dele, mesmo não sendo. 
Queria um pedido de casamento para lhe dizer o mais amoroso não. Para então tomá-lo pela mão e desenharem juntos os caminhos a dois, sempre de mãos dadas, com a suavidade de não fazer tudo sempre igual. Ela queria a solidão dele, queria dividir com ele o seu sem rumo. Ela o queria quase toda noite, ser esmagada na parede, dividir um coração apertado e quente. 
Queria cuidar dele enquanto ele estivesse hospedado nela. Queria hospedar-se nele também e, ali, naquele espaço de tempo, receber seus cuidados.
Ela queria amar para sempre e para sempre ser amada, mas não buscava a promessa – não era ali que morava o para sempre. Ela também queria a falta dele, de que também era feito o amor por ele, o amor dele por ela. Ela o queria inteiro para si mesmo e tanto maior ao seu lado. Ela queria, não a promessa mas, a vontade. Ele queria, não a obrigação mas, a sorte. Eles queriam estar sempre começando de novo. Ela, que tinha uma história comprida, que vinha gastando no caminho. Ele, que há anos vinha arrastando o peso da sua. Muitas vezes ele pensava em desistir dela. E dela fugia. Mas era de si mesmo que ele fugia. Ele saía. Mas sempre voltava para casa.

Bú? 
Procurava o amor em jardins de cactus

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Sad Songs For Dirty Lovers


John Steinback escreveu:
“Parece-me que você ou eu devemos escolher entre dois cursos o pensamento e a ação,  devemos nos lembrar da morte e, assim, viver a tentativa de que nossa morte não traga nenhum prazer ao mundo."


É tudo verbo, verso, prosa atoa. Tudo pode ser cuspido, rasgado, obra prima perdida em rasuras. .. Paixão destituída de sanidade, não quero mais o encaixe de tudo, o úmido da língua, o perfume da pele, a carícia dos dedos.

Não creio mais em noites acesas, em madrugadas intensas, em manhãs de luxúria. 
Não creio mais em tardes febris e desesperadas. Não quero mais sensações de eternidade, sussurros advindos do querer.   Creio em frases desacompanhadas, em palavras cruas, textos sem autor. Tudo é falta de comprometimento, tudo é vácuo, vazio, relento. 
É um longo banho de culpa, tentando se lavar com honestidade momentânea;  é uma prolixidade que não diz, arrematada por um silêncio que não acalenta.


Bú? Can’t Stop This Thing We’ve Started

domingo, 4 de novembro de 2012


" Imagine que você está a beira-mar e que você vê dois navios partindo.
Você fica olhando, enquanto eles vão se afastando, cada vez mais longe, até que finalmente aparecem apenas dois pontos no horizonte, lá onde o mar e o céu se encontram.
 E você diz: "Eles se foram".

Foram aonde? Foram a um lugar que sua vista não alcança, só isto.
Eles continuam tão grandes, tão bonitos e tão importantes como eram quando estavam perto de você. 
A dimensão diminuída está em você, não neles.
E naquele exato momento em que você está dizendo "Eles se foram",
 há outros olhos vendo-os aproximarem-se e outras vozes exclamando com júbilo: "Eles estão chegando!" "
-> Sobre o fim dos lírios.

Rasgue seus cadernos

Durmo pouco, as noites costumam ser enormes; olho para cima, atravessando meu teto vejo o céu. Em uma noite luminosa, as estrelas escrevem; sem entender, normalmente, apenas compreendo. Também sou essa escritura, sou esse poema, que nesse exato momento alguém - me - soletra.
Um texto composto por urgências: alegrias complementares, tristezas absolutas. Cheia de ausências - delineado por espaços e reticências, sou composta por excessos. Eu não caibo no estreito, vivo, só, entre extremos - no maniqueísmo da ortografia transformada e transformadora; caminho, desequilibrada, em cima de uma linha tênue entre o sagrado e o profano. 
O que tenho de mais obscuro, é o que me ilumina. É a minha lucidez que é perigosa. Diria que sou irremediável, dentro do fato da escrita irreversível, encontro-me hermeticamente fechada.


Bú? 
No meio do nó(s)

Dialética - desnudada veste social

Abro a porta, escancaro os cadernos e destampo a caneta, torno mais agradevel a posição dos livros que leio para que as palavras venham nocivas, indecisas, despudoradas, vestidas de dores, de mágoas, de raivas. Que cheguem até mim como quiserem, que se ofereçam delicadas ou urgentes, despidas de tudo, eloquentes, mas que sejam translucidas. Sem falso moralismo, recalques, alegrias artificiais, entusiasmos opacos.
Através dessas linhas tortas e torpes surjam palavras: inocentes, indecentes, inexistentes. Componham frases, poemas, cartas, músicas. Apareçam livres, eufóricas e aladas, sem apego ao eu-lirico, ao sentimento. Venham vivas, mesmo que para falar, acidamente, dos mortos que ainda não foram enterrados. 
Que se apropriem da temática e narrem uma história de amor entre aquela que não morreu, e aquele que não renasceu; que os apófricas possam ler, que os acadêmicos consigam sentir.

Bú? "A palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras. Elas são nossa única realidade ou, pelo menos, o único testemunho de nossa realidade". Octávio Paz