Até que me esgote a voz


terça-feira, 27 de novembro de 2012

O passado bateu a minha porta


O encontro não era inesperado, pelo contrário, aguardado com certa ansiedade.
E quando você olha para o lado e nada mais te segura, você pula? 
O que dizer estava muito bem ensaiado, com as devidas palavras e respectivos silêncios. Foi antes que eu pudesse me dar conta que o momento fez-se inconstante, feito instante que nasce pra ser curto e não quer morrer. 
Pensar em pular já é um ato de coragem, alguns nem mesmo perceberiam essa janela. Mas você percebeu e agora pensa, será que eu pulo? Será ? 
Tava ali, um pêndulo oscilando entre passado e futuro, varrendo o presente pra qualquer lugar onde, mais tarde, eu pudesse remoer cheia de remorsos.
Chegar neste momento da escolha já representa um rompimento, afinal você está consciente da questão. Decidir ignorar o desejo do salto também é um ato consciente, logo independente do que você escolha, pular ou não pular, existe o você antes e depois da vontade. As palavras não ditas sempre me atormentam mais que as (mal)ditas.
Portos só servem para descarregar, e o resto é mar (tudo que eu não sei cantar/contar).
Bú? Não é todo rio, que tem um mar pra se encontrar. Mas, dá pra evaporar e encontrá-lo através do ar.

(O passado bateu a minha porta em meio a madrugada e o deixei entrar, agora ele pede uma xícara café pois a conversa vai ser longa, podemos mudar o futuro.)

domingo, 25 de novembro de 2012

21111983


Saiba que apesar do meu jeito torto, perdido e etc. eu torço muito por você. (mas sei também que você não precisa da minha torcida, seu esforço é o seu melhor espectador).
Espero que você tenha vontade e amor o suficiente para nunca pensar em parar, dinheiro e sucesso para nenhuma algema te prender, força e garra pra nunca cansar de tentar. Use o que você tem e persiga o que quer e precisa. Não deixe que o herói de sua alma padeça frustrado pela vida que queria e merecia ter mas nunca teve coragem de ir buscar.
Não deixe que sua chama se apague com a indiferença,
nos pântanos desesperançados do ainda não, do agora não. Enfim, aproveite o seu dia, os seus dias...aproveite a sua vida e saiba que muitos gostariam de tê-la, portanto faça por merecer esse belo coração batendo, essa bela alma lutando!Os negócios humanos apresentam altas como as do mar: aproveitadas, levam-nos as correntes à fortuna; mas, uma vez perdidas, corre a viagem da vida entre baixios e perigos. Ora flutuamos na maré mais alta. Urge, portanto, aproveitar o curso da corrente, ou perder nossas vantagens. (Júlio César - William Shakespeare)Jamais se esqueça: alguns nascem para serem líderes e outros para seguir. Espero que saiba a sua posição, e como lidar em relação a ela!

Bú? No filme que eu nunca vi estamos juntos. (LEIA, ainda é sua música; SILÊNCIO se tornou a minha letra)

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Um prefixo para o futuro

O som era de silêncio. Parecia, pela primeira vez, que ela não ligava para o quanto duraria a espera. Disritmia? Preferiu não palpitar. As ideias todas lá desmoronando e ela buscando a palavra perfeita que lhe trouxesse explicação acertiva.
Não achava palavras em seu vocabulário curto e seu dicionário vazio, esperava que alguém lhe dissesse... o silêncio é que reinava, tentou ligar, começou a escrever, mas enfim que resolveu esperar. Era melhor crer cegamente, do que lutar e descobrir antes do fim do combate que já perdeu a luta - pensou e, então, esperou.

As horas passavam, arranhavam, cuspiam, mas ela não se importava. Os minutos se arrastavam lentamente, zombeteiros; e ela procurava achar graça, para não se deparar com a tristeza. Permanecia imóvel, em  uma quase letargia; parecia que, muitas vezes, tinha era preguiça de existir.
Tão desajeitada, essa menina, vivia feito obra pela metade, tinha um “quê” por se (re)fazer. Talvez por isso não fizesse caso em se desfazer a todo momento. E desmoronava na habitual avalanche de si. Naquele dia foi pra cama com a insônia no cangote. A alma pregada no teto era toda caretas. Entendeu, então, o despautério: era o tempo que ela esperava. E, sem que ela se desse conta, ele passava.
Em delírios de meias noites repletos de luas crescentes via os sorrisos minguarem. Tinha mais de um quarto de hora, uma cama semi-vazia e muito pesar, de tanta vontade que insistia em não passar. Era de dar preguiça tanto lembrar. Em pensar no quanto ainda estava por vir, mas o tempo é sempre relativo demais pra intuir. Só de imaginar dá cansaço esse desenrolar. É sempre assim, os copos se vaziam e os corpos permanecem emoldurados em velhas palavras, escorados em paredes descoradas.

Bú? 
É fácil dizer que quer ouvir. Difícil é conviver com algo que não precisaria estar ali. Que incomoda. Mas que já não significa nada para a outra pessoa. Então por que saber? Já temos dificuldade em lidar com o presente. Sendo assim, para que envolver o passado na história?
Por outro lado, há verdades que precisam ser ditas. Ajudam a traçar o futuro com base no presente. Talvez esteja aí o segredo: o que é atual e continuo deve ser dito:
Aquela verdade que já é conhecida, mas que não é agradável; é preciso saber dela, pois com ela se descobre como agir, o que pensar. É bom tê-la por perto para nos lembrar da realidade.

Alergia e Alegria

Mata-me de prazer e de pavor.
Sua necessidade nasce do doce fel, que faz te querer ansiosamente.
Encontrar-te, deliciar-me de ti faz arder, cresce em mim todo o tipo de não aceitação que cabe ao corpo; gerando na mente um pouco de culpa por enorme prazer.
Mas, prazer é prazer, é a alegria eufórica por enfim existir. E, apesar, de um nada sutil queimar, grito, ao deliciar-me ainda mais com todas restrições, vivamos alegremente!
Recomendam-me sacrifício e renuncia, questiono-me, por que? Quando? Depois de minha morte!
Vivo agora o formidável sonho, alegre . Minha escolha está feita, é preciso comer!
Delicio-me com você, e quando for preciso sofrer por ti, roçarei na dor depois de engolir o júbilo, esfregarei na aflição após abraçar verdadeiramente o deleite.

Bú? CacauCaféAçúcarDoceAmargo


domingo, 18 de novembro de 2012

Cemitério das intenções

Agora quero dizer umas coisas que vocês já sabem. Sabem tão bem quanto eu, mas certamente não costumam pensar muito nelas nem se preocupar com elas frequentemente. Não me importa o que dizem - todo mundo sabe que alguma coisa é eterna. E não são as casas, nem os nomes, nem a terra ou mesmo as estrelas...todo o mundo sabe, dentro de si mesmo, alguma coisa é eterna e que tem relação com os seres humanos. É o que nos afirmam, há cinco mil anos, todos os grandes povos que passaram, e, entretanto, vocês ficariam surpresos se soubessem quanta gente se esquece disse. Exite alguma coisa profunda e eterna em todos os seres humanos. 
Vocês sabem muito bem que os mortos não permanecem interessados em nós, os vivos, por muito tempo... Pouco a pouco, eles se desligam da terra... das ambições que tiveram... dos prazeres que tiveram... das coisas que sofreram... e das pessoas que amaram. Eles vão se soltando da terra - é justamente isso - vão se soltando. Sim, eles permanecem aqui enquanto sua parte terrena arde e se apaga, e em todo o tempo vão-se tornando indiferentes ao que acontece em suas pequenas cidades. Estão esperando. Estão esperando por qualquer coisa que sabem que virá. Alguma coisa grandiosa e importante. Não estarão eles esperando que essa parte eterna que neles existe se revele? Alguma das coisas que vão dizer talvez deixem chocados - mas é assim que isto é, mãe e filha... marido e mulher... amigo e inimigo... dinheiro e miséria... todos esses sentimentos tremendamente importantes vão se empalidecendo aqui.
O que é que fica quando a memória se vai?

Bú? Pode alguma criatura humana compreender a vida, enquanto ela viver? - minuto por minuto?


Thornton Wilder - Nossa Cidade

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Como justa é a lei

Um dia sem muitos porquês se deparou com a gaveta de correspondências, há tempos não a abria, há tempos não recebiam mais cartas, a modernidade a modernidade apagara-lhes o brilho. Quis recordar um pouco do que lhes traziam aqueles papeis que cheiravam a saudade. Olhava com ternura as cartas que seu amado escrevera-lhe quando jovens, ela as havia guardado para não esquecer de como eram. Envergonhou-se por ter esquecido, por tê-las esquecido por tanto tempo trancadas naquela gaveta, separou-as e para lê-las mais tarde, o tempo passava, não podia perder a hora.
Recolheu as cartas e levou-as consigo para o quarto, deixando uma delas cair no corredor. 
Ao ler o passado, viu o presente, e só assim conseguiu vislumbrar um futuro real. Era necessário uma fuga, sem explicação. 
Deixou tudo para trás, menos as cartas. Foi embora sem nada dizer.
Naquela noite, vendo que ela tinha saído e tudo estava no devido lugar achou que ela tinha ido para a casa de uma amiga; de madrugada quando ela não voltou, pensou que ela havia resolvido dormir lá.
Nos outros dias quando a falta já estava latente e a não explicação lhe destruía o ego; o orgulho não permitia que ele a procurasse.
Um dia,  quase que sem querer, se encontraram em uma livraria.
Um livro os uniu: Ridículas cartas de amor, ridículo não amar  por cartas.
Ela havia publicado um livro, o enredo se baseava nas cartas de amor que ele escreveu.
O livro os uniu, o prefácio os separou.
O prefácio, julgava ele, era a carta/bilhete de amor e despedida que ela nunca escreveu:

Outro dia se encontram numa esquina qualquer e o sorriso que trocaram dessa vez foi pra mostrar que apesar do fim, o mundo continuou girando. E entenderam que bons livros precisam de páginas, páginas bem escritas.hospedagem de site grátis


Bú? Ele amava a sua erudição, mas queria mais que boas metáforas para uma simples fuga sem explicação

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Fria


Duas estrelas no mar,
uma parte do céu
que eu deixei desmorar.
Duas estrelas no fundo mar,
sonhos de uma noite
que nunca irão
se realizar.

Nada,
nenhum amor que tirasse de mim o ar
Nada,
nenhum sonho que pudesse realizar

E eu que te deixei cair,
eu que nem tentei te segurar
e eu que nunca fiz algo pra impedir...
Choro toda noite,
tentando te encontrar
meu no mar...
de lágrimas.
No meu céu
sem estrelas.



Bú? Feito pra não durar.
(O menino viu no céu um estrela, e será só uma estrela. Um vagalume comum, brilhando muito longe; uma sujeira universal que morreu a muito tempo.
Como cientista, assim, a estrela não trouxe pra ele verdade, vida, sentido, significado e nem arte; trouxe um pouco mais de poeira cósmica para os leigos olhares.)

The Doubt




Não houve vigília temerosa na luta contra pesadelos alheios, não existiu divisão de sonhos, nem compartilhamento de sonambulismo febril em paixão. 
Se em algum suposto momento houve mãos dadas em alguma caminhada ou oferecimento de um abraço, foram só partes isoladas do corpo que em algum momento - por estarem perdidas do seu total - encontraram-se.  Se caso as mãos, por um acaso, se encontraram, foi de fato um mero acaso; não foi como o primeiro e decisivo toque de Romeu em Julieta;  se caso tenhamos nos abraçado, foram troncos que se encontraram, como encontram tantos outros; não foi como o abraço de partida de Romeu e Julieta, foi como um esbarrar sem querer mais impossível de evitar.

Nenhum acordo foi selado através de saliva, não houve um entrelaçamento de sentimentos por intermédio da língua, não existiu carinho e nem paixão pulsando nos lábios, não foi uma troca de pecados - como a que narra Shakespeare, nem uma tentativa de confissão sobre sentimentos. O amor grita, sussurra, implora, é sem precisar de adições ou subtrações; coisa que o sexo jamais poderia se quer tentar ser.Na traição não existem dúvidas, porque há sentimentos e dentro dos sentimentos reais não cabem hipóteses, só os fatos.O que o corpo diz e faz é ação animal; mas o que a alma grita é sentimento que está além da flor da pele , é a angelical forma do humano ser. De um lado há alguém que é, do outro lado há alguém que passou.
O amor não se sustenta na mão apertada, no abraço longo, no beijo de intimidade devastadora, no sexo de elevação de almas. O amor se sustenta na respiração que para, no olhar bobo, na paz de espírito. De um lado da história nunca houve nem um, nem outro; do outro, pelo que parece, existiu os dois, mutuamente.O amor não tem o peso de uma lágrima, sequer. Ao morrermos perdemos 21gramas, mas a morte é muito mais árdua de se carregar  do que isso. 
Bú? 
 Culpa, basta-me a culpa que ofereço a mim mesma - que muito maior do que qualquer pessoa possa me oferecer.E por mais que um lado diga coisas de forma que pareçam menos abstratas, não vai mudar dúvida que há do outro lado. Afinal de que lado estamos falando? A esquerda diz que nessa situação é uma mosca, a direita pode refutar ou afirmar? não, pois por serem, supostamente, opostos não se conhecem.

Miserável descoberta

Pondes vossa esperança justamente no que não vai acontecer

O homem tem sobre si a carne, que é ao mesmo tempo fardo e tentação. Ele a carrega e a ela se submete. 
Deve vigiá-la, contê-la, reprimi-la e não ceder senão em último caso. Nesses casos, se houver pecado, será venial. As pequenas faltas são quedas sob os joelhos: podem transformar-se em oração.
Ser santo é exceção; ser justo é regra. Errem, desfaleçam, pequem, mas sejam justos. Pecar o menos possível é a lei dos homens. Não pecar nunca é sonho de anjos. Tudo o que é da terra está sujeito ao pecado. O pecado é uma gravitação.

Bú? VICTOR HUGO -( Uma vida curta, para um fim de semana tão longo. Tem horas que as coisas pesam mais do que pensamos ser capaz de aguentar; nessa hora devemos ficar firme pois dias melhores hão de chegar.

Miserável necessidade

Enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos  e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século - a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância - não forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre terra houver ignorância e miséria, livros não serão inúteis.

Bú? Prefácil - VICTOR HUGO.

sábado, 10 de novembro de 2012

13/11/12 (NY)


Passamos metade da vida à espera daqueles que amamos, e outra a deixá-los.
O futuro pertence ainda mais aos espíritos do que aos corações.  
Amar, afinal, é a única coisa que pode ocupar a eternidade, pois ao infinito é necessário o eterno inesgotável.O amor em vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace.




Sabe o que vem a ser a amizade? - Indagou.

- Sim - respondeu - é ser como irmão e irmã; duas almas que se tocam sem se confundir, dois dedos da mão.




- E o amor? - Prosseguiu.

- Oh, o amor! - disse ela - É ser dois e não ser mais que um. Um homem e uma mulher que se fundem num anjo. É o céu.




Bú? Faltam-me palavras para escrever, falta-me leveza com as letras e sabedoria com os pontos. Meu eu ainda não é lirico o suficiente para te fazer ascender com as minhas orações.
Que Victor Hugo consiga expor aquilo que meu coração sempre irá sentir. 
Que os anjos consigam ao seu lado sorrir, e comemorem ai no céu; pois na Terra ainda choramos, incansavelmente.

A desordem é tenaz.


Fingindo ter forças, querendo fazer crer que teria coragem, ele diz:
- Posso lutar contra você.

Ela, friamente, responde:
- Você irá perder.

Ele, com tristeza, questiona-se:
- Onde está a sua compaixão?

E com uma dura resposta nos lábios, ela responde:
- Em nenhum lugar que você consiga alcançar. Eu não tenho compaixão por você, eu sei que você é invulnerável  a qualquer arrependimento.

Bú? A VERDADE TEM MUITAS CARAS

A verdade tem muitas caras

Sacrificando-se, a jovem diz:
- Queria ser como a senhora. Responsabilizando-me por mais um erro, pois sei que para esse haverá penitencias que me livrem do pecado, ouso dizer que invejo a senhora. Quem me dera ser como és.

Sem entender, a senhora indaga:
- Por quê?

Apesar de toda a dor, a jovem permite que a resposta saia:
- Porque já não consigo dormir.

A senhora, que agora compreende melhor, assume:
- Talvez, ambas, não tenhamos tido boas noites; talvez, não estejamos dormindo muito bem. Na busca pelo pecado nos distanciamos de Deus, e é claro que isso tem preço, o valor está além da descoberta do pecado.

Silenciosamente, a jovem diz entre lábios apertados:
- ...Compreendo...

Descendo do seu pedestal de ar, entre lágrimas soluçantes a senhora confessa, como se um padre feito de vento e garoa pudesse absolvê-la da culpa:
- Tenho dúvida. Tenho dúvidas tão grandes, que se alimentam do meu sono com pontos de interrogações intermináveis para além da madrugada.

Bú? Tantos laços, tantas amarras; os controles, pretensões.
n
ada adianta se o vento não soprar.

Enquanto os olhos fecham...


Tenho vivido dentro da minha bolha de sabão, através da qual vejo o mundo e ele me vê.


Não olha agora, estou olhando para você.


Lembrei, pensei, medi, senti e paralelamente a tudo isso o Mundo continuou a girar. Olhando daqui, agora, as coisas parecem um pouco fora de lugar; mas talvez eu é que esteja me posicionando do lado contrário à luz. O Mundo mantinha seus movimentos de rotação e translação, enquanto eu fingia que um vagalume era a Lua me esperando além de qualquer limite físico que me impeça de enxergar.

No nosso livro a nossa história é faz de conta ou é faz acontecer?


Nas últimas noites eu despertei ao luar. Eu acordei, ao invés do despertador, algo me despertou. E eu me dei de presente madrugadas afora.


Dê-me a Lua que eu te faço adormecer.

Fiz “muito”, fiz “nada”, passei horas olhando para além do teto acima da minha cama, como se cimento e tijolo fossem translúcidos ao luar, enxerguei  para além do céu. Porque tem horas que parede nenhuma pode me conter.


Larguei-me, dormi, nas margens de mim.

Bú? Eu quis prestar atenção
Tudo o que é menor, mais lento e baldio
Deixo o rio passar tão voraz, veloz
Me deixo ficarQuando o sol acena bate em mim
Diz valer a pena ser assim
Que no fundo é simples ser feliz
Difícil é ser tão simples





Anoitecerá


Houve uma madrugada em que ele não prestou atenção, entre uma risada e outra, suas mãos depararam com as dela, seu corpo encostou quente em alguma parte do dela. E, então, o tempo foi longo. Do primeiro beijo à dança de rosto colado que mais parecia o corpo fazendo declaração de amor. Com ações escreveu no espaço uma canção para a menininha, uma derradeira confissão, feita na tradução das palavras que não cabem na boca. 
Houve essa noite em que seu corpo disse e o dela respondeu. Não havia receio, nome, raciocínio ou amanhã.  Ele acordou obstinado a montar vigília, com olhos de coruja, sem perder um só de seus movimentos. Aquela tinha sido apenas a sua noite de folga, uma noite de longa fuga a dois.

Bú? Vou arma minha rede na nuvem, na noite será?!

Cê parô - Separo.


A vontade dele era de fazer um pequeno abrigo, e morar nela; ela, a quem ele não dava nome, que só existia entre quatro paredes, num querer proibido.
Ele queria morar nela, mesmo sabendo que naquele corpo não cabia; ela era tão pequena, magrela, um menino-moleque e naquele corpo de pseudo-menino ele queria uma mãe. Para então naquele corpo de mãe, poder ser homem, pai.

Ele não se reconhecia nela, mas só se achava, compreendia-se e se completava ali, nela. Ali ele fazia suas confissões, a respeito do que lhe metia medo, das mentiras que a vida lhe fez, dos desejos que nem teve. E diante dela ele já nem sabia o que era verdade.
Ele queria entrar ali dentro e nascer outra vez: puro, diferente, autêntico. Desejava adormecer nela, mesmo que no dia seguinte saísse ao encontro de sua vida cotidiana. Os amigos de longa data, que ele só sabia amigos por assim ter aprendido, não sentia aquele bem-estar neles. Há muito ele vinha separado do seu bem-estar; ele, que vivia para fora, robô de si mesmo, sem se perguntar se era mesmo por ali.
Ele sempre voltava para ela.
A cada noite ela lhe contava uma história, e era sempre a história dele que contava. Como se lhe voltasse um espelho e, ali, ele se visse nu. Ele gostava de ouvir sua própria história, mesmo saindo dali assustado e com medo. Havia muitos e muitos anos que ele evitava o espelho, mas o dia chegava ao fim e ele voltava para ouvir mais uma história, rara se ver mais um pouco. Havia naquelas histórias alguma coisa que o atraía, algo que o intrigava, de que ele vinha fugindo, que ele vinha desprezando, até que no caminho de fuga deparou com.
Ele fugia de sua própria vida e, no caminho que tomou para evitá-la, a encontrou; a garota sem nome que
 lhe contou, ela, que era invisível, que ninguém mais conhecia. 
A vida em volta continuava a mesma, embora ele sempre voltasse. Eram amigos, disso, ele tinha certeza. Ele queria morar nela, mas tinha medo de ali ficar; ela queria, sim, a sua presença, ali, ele seria sempre bem-vindo. Mas o desejo dela não era o de engolir. Ela era pequena, a menor de todas, tão menor que ele. Mas ali ele permanecia noites inteiras, confortável, naquele canto exato e quente.
Ela não o queria para si, embora o quisesse. Desejava em seus sonhos que ele a quisesse tomar para si, queria que ele sempre fosse bem-vindo, como queria ser bem-vinda sempre; almejava, de vez em quando também se hospedar nele, mesmo que por um tempo limitado, com a certeza de que a casa nunca seria sua.
Ela queria aquele amor macio e estranho, sem garantias de ser para sempre, ela queria aquele amor fresco de hoje; queria amar com liberdade, embora soubesse do seu próprio o desejo de pertencer. Ela queria poder ser dele, mesmo não sendo. 
Queria um pedido de casamento para lhe dizer o mais amoroso não. Para então tomá-lo pela mão e desenharem juntos os caminhos a dois, sempre de mãos dadas, com a suavidade de não fazer tudo sempre igual. Ela queria a solidão dele, queria dividir com ele o seu sem rumo. Ela o queria quase toda noite, ser esmagada na parede, dividir um coração apertado e quente. 
Queria cuidar dele enquanto ele estivesse hospedado nela. Queria hospedar-se nele também e, ali, naquele espaço de tempo, receber seus cuidados.
Ela queria amar para sempre e para sempre ser amada, mas não buscava a promessa – não era ali que morava o para sempre. Ela também queria a falta dele, de que também era feito o amor por ele, o amor dele por ela. Ela o queria inteiro para si mesmo e tanto maior ao seu lado. Ela queria, não a promessa mas, a vontade. Ele queria, não a obrigação mas, a sorte. Eles queriam estar sempre começando de novo. Ela, que tinha uma história comprida, que vinha gastando no caminho. Ele, que há anos vinha arrastando o peso da sua. Muitas vezes ele pensava em desistir dela. E dela fugia. Mas era de si mesmo que ele fugia. Ele saía. Mas sempre voltava para casa.

Bú? 
Procurava o amor em jardins de cactus

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Sad Songs For Dirty Lovers


John Steinback escreveu:
“Parece-me que você ou eu devemos escolher entre dois cursos o pensamento e a ação,  devemos nos lembrar da morte e, assim, viver a tentativa de que nossa morte não traga nenhum prazer ao mundo."


É tudo verbo, verso, prosa atoa. Tudo pode ser cuspido, rasgado, obra prima perdida em rasuras. .. Paixão destituída de sanidade, não quero mais o encaixe de tudo, o úmido da língua, o perfume da pele, a carícia dos dedos.

Não creio mais em noites acesas, em madrugadas intensas, em manhãs de luxúria. 
Não creio mais em tardes febris e desesperadas. Não quero mais sensações de eternidade, sussurros advindos do querer.   Creio em frases desacompanhadas, em palavras cruas, textos sem autor. Tudo é falta de comprometimento, tudo é vácuo, vazio, relento. 
É um longo banho de culpa, tentando se lavar com honestidade momentânea;  é uma prolixidade que não diz, arrematada por um silêncio que não acalenta.


Bú? Can’t Stop This Thing We’ve Started

domingo, 4 de novembro de 2012


" Imagine que você está a beira-mar e que você vê dois navios partindo.
Você fica olhando, enquanto eles vão se afastando, cada vez mais longe, até que finalmente aparecem apenas dois pontos no horizonte, lá onde o mar e o céu se encontram.
 E você diz: "Eles se foram".

Foram aonde? Foram a um lugar que sua vista não alcança, só isto.
Eles continuam tão grandes, tão bonitos e tão importantes como eram quando estavam perto de você. 
A dimensão diminuída está em você, não neles.
E naquele exato momento em que você está dizendo "Eles se foram",
 há outros olhos vendo-os aproximarem-se e outras vozes exclamando com júbilo: "Eles estão chegando!" "
-> Sobre o fim dos lírios.

Rasgue seus cadernos

Durmo pouco, as noites costumam ser enormes; olho para cima, atravessando meu teto vejo o céu. Em uma noite luminosa, as estrelas escrevem; sem entender, normalmente, apenas compreendo. Também sou essa escritura, sou esse poema, que nesse exato momento alguém - me - soletra.
Um texto composto por urgências: alegrias complementares, tristezas absolutas. Cheia de ausências - delineado por espaços e reticências, sou composta por excessos. Eu não caibo no estreito, vivo, só, entre extremos - no maniqueísmo da ortografia transformada e transformadora; caminho, desequilibrada, em cima de uma linha tênue entre o sagrado e o profano. 
O que tenho de mais obscuro, é o que me ilumina. É a minha lucidez que é perigosa. Diria que sou irremediável, dentro do fato da escrita irreversível, encontro-me hermeticamente fechada.


Bú? 
No meio do nó(s)

Dialética - desnudada veste social

Abro a porta, escancaro os cadernos e destampo a caneta, torno mais agradevel a posição dos livros que leio para que as palavras venham nocivas, indecisas, despudoradas, vestidas de dores, de mágoas, de raivas. Que cheguem até mim como quiserem, que se ofereçam delicadas ou urgentes, despidas de tudo, eloquentes, mas que sejam translucidas. Sem falso moralismo, recalques, alegrias artificiais, entusiasmos opacos.
Através dessas linhas tortas e torpes surjam palavras: inocentes, indecentes, inexistentes. Componham frases, poemas, cartas, músicas. Apareçam livres, eufóricas e aladas, sem apego ao eu-lirico, ao sentimento. Venham vivas, mesmo que para falar, acidamente, dos mortos que ainda não foram enterrados. 
Que se apropriem da temática e narrem uma história de amor entre aquela que não morreu, e aquele que não renasceu; que os apófricas possam ler, que os acadêmicos consigam sentir.

Bú? "A palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras. Elas são nossa única realidade ou, pelo menos, o único testemunho de nossa realidade". Octávio Paz

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Condensação dos ventos


Onde a poesia parece dissolver e se refaz em seguida: é lá que a gente se encontra. Não junto. Você se encontra com você e eu comigo mesma. Suba as escadas e abra a porta, observe as coisas que você nunca viu antes; quero que reconheça essa casa mesmo no escuro.
É na tentativa primata de seguir sendo que podemos nos olhar, reconhecer e, quem sabe, furar o cerco dos olhares que não nos olham. Talvez façamos algo que fira a visão indolente dos que nos ignoram tão facilmente. Eles foram se encantando e se envolvendo; depois, é claro, de alguns truques. E então, o caminho enveredou por rumos desconhecidos, mas você já havia domado seus olhos para os caminhos abstratos. Atravessou a avenida, carregando o vento sobre seus ombros, e a encheu de memórias. Você está chegando no começo, esse é o começo de algo que está prestes a acabar.
Primeiro segredos, histórias e músicas, mas a verdade teve que ficar para outro momento, um momento de menos honestidade. 
Foi essa hora que eu segurei e suspendi no alto de nossas cabeças, como luz de idéia ou lamparina discreta, a clareira que se fez na impossibilidade fértil. E você, viril, fecundou de vontades meu ensejo estéril, obcecado. Nasceu um rebento que não pude conformar.
Desculpe. 
A quem possa ferir esse afeto tanto, meu lamento. É que meu querer não conhece amenidades. Precisava de você. Não menos. 
É que havia demasiada solidão e saudade no espaço do vento entre nós naquele abraço. Tinha cheiro de amor-recém-chegado o seu perfume no final do dia, tinha uma eu impressa na sua pupila, e um você impresso no meu olho inteiro. 
O barulho da vida, do lado de fora da minha janela, pouco me importava; o que me domava as rédeas do impulso eram os ruídos vindos de dentro:  ranço, apego e desejo, merecidos, imerecidos apelos.

Bú? Ela matava a si aos poucos, diariamente, essa era sua função. Perto de matar a outra, numa luta perdida, para ambas, desfaleceu com a terceira respiração. - O caráter muda tudo.
Suas verdades, minhas mentiras. 

Oliveira

Era uma vez uma Isolda, que escrevia diariamente para  o seu Tristão.
Ela escrevia, escrevia todos os dias. A cada dia uma nova carta para seu amado.
Sentia-se culpada por não estar com ele, ele não sabia o quanto ela gostava dele e ela temia que ele não fosse descobrir.
Ela escrevia cartas todos os dias, uma por dia, nelas deixava um pouco mais claro o seu enorme carinho; orando para que ele as pudesse ver e retribuir com ao menos um enorme abraço e um belo olhar.
Ele, guerreiro que era, lutou com natureza, guerreou com sua rival - medieval -  doença. Venceu.
Como um príncipe, pequenino, ele retribuiu as cartas da sua querida Isolda. Sorriu, riu, beijou e abraçou.
Abriu os olhos e fitou-a profundamente. Seu olhar grato, que olha com a alma de príncipe, tomava-a nos braços como um grande amigo e um doce amor; ela raposa, cativada que estava, dispunha de qualquer gratidão entre lágrimas.

Bú? O verdadeiro homem mede a sua força, quando se defronta com o obstáculo. (Antoine de Saint-Exupéry)
O grande guerreiro, tem se mostrado cada vez mais forte e digno dessa força, que usa para sorrir e nos fazer sorrir, para vencer! - "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas." ♥

VINTEUM

"Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar"





Bú? Ghost. 21111983-16/02 (2121)