Até que me esgote a voz


domingo, 18 de novembro de 2012

Cemitério das intenções

Agora quero dizer umas coisas que vocês já sabem. Sabem tão bem quanto eu, mas certamente não costumam pensar muito nelas nem se preocupar com elas frequentemente. Não me importa o que dizem - todo mundo sabe que alguma coisa é eterna. E não são as casas, nem os nomes, nem a terra ou mesmo as estrelas...todo o mundo sabe, dentro de si mesmo, alguma coisa é eterna e que tem relação com os seres humanos. É o que nos afirmam, há cinco mil anos, todos os grandes povos que passaram, e, entretanto, vocês ficariam surpresos se soubessem quanta gente se esquece disse. Exite alguma coisa profunda e eterna em todos os seres humanos. 
Vocês sabem muito bem que os mortos não permanecem interessados em nós, os vivos, por muito tempo... Pouco a pouco, eles se desligam da terra... das ambições que tiveram... dos prazeres que tiveram... das coisas que sofreram... e das pessoas que amaram. Eles vão se soltando da terra - é justamente isso - vão se soltando. Sim, eles permanecem aqui enquanto sua parte terrena arde e se apaga, e em todo o tempo vão-se tornando indiferentes ao que acontece em suas pequenas cidades. Estão esperando. Estão esperando por qualquer coisa que sabem que virá. Alguma coisa grandiosa e importante. Não estarão eles esperando que essa parte eterna que neles existe se revele? Alguma das coisas que vão dizer talvez deixem chocados - mas é assim que isto é, mãe e filha... marido e mulher... amigo e inimigo... dinheiro e miséria... todos esses sentimentos tremendamente importantes vão se empalidecendo aqui.
O que é que fica quando a memória se vai?

Bú? Pode alguma criatura humana compreender a vida, enquanto ela viver? - minuto por minuto?


Thornton Wilder - Nossa Cidade